segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um mundo transparente :. por ROBERTO DaMATTA*

Um gênio descobriu o poder da comunicação pelo pensamento. No início, foi uma delícia poder falar sem sons - sem gemidos, lágrimas, sussurros e sorrisos. Como no cinema mudo, as pessoas exultavam com o fato de comunicar-se pelo cérebro. Bastava pensar numa pessoa e, pronto! - fazia-se o contato. Mas logo os homens, com sua habitual incongruência e, como disse Machado de Assis, sua sistemática ingratidão, ficaram infelizes. Pois descobriram o vazio do silêncio (que só existe quando há barulho) e viram como ele era não apenas grato, mas essencial. Se não era fácil viver num mundo ruidoso, no qual os sentimentos e as palavras de ordem superavam a compreensão, não era fácil viver num universo no qual a comunicação era radical, completa e transparente. Pois, com o pensamento, nada ficava oculto, nada permanecia escondido e os mal-entendidos que inventam os ódios e os amores; a fé que produz os milagres e os poemas; os primitivos "acho que você não me entendeu..."; os selvagens "mas essa não era minha intenção..."; os rústicos "eu sempre quis te dizer isso, mas teu marido estava por perto..."; e os contratos desapareceram.

O pensamento - invisível e inaudível, sinuoso, permanente, incontrolável e invasivo como uma enchente - tornava a compreensão entre os seres humanos um ato absoluto. E, justamente por isso, ele impedia tudo, principalmente os sentimentos. Os primeiros a serem liquidados foram atos fundamentais: o fingir, o disfarçar e o mentir. E, sem poder mentir, houve uma tal sinceridade que a individualidade, com suas escolhas e seus planos essencialmente secretos; as paixões, com suas fúrias, inibições e gozos; e as esperanças, com suas expectativas, desvaneceram-se. E assim muita gente se matou, especialmente no governo, nas igrejas e na universidade. Muitos isolaram-se em casas com paredes de chumbo que, descobriu-se, tornavam fracas as ondas mentais, diminuindo, mas infelizmente não impedindo, a telepatia e a tragicomédia de um entendimento total, completo e absoluto.

Em poucos anos, o drama que é justamente o que jaz eternamente entre o dito e o não dito; o que fica encerrado dentro de cada qual sem ruído ou palavra; ou o que se transforma em silêncio ou suspiro reprimido, tornou-se coisa do passado, e as pessoas ficaram muito amargas e tristes porque não havia mais a distinção entre o manifesto e o oculto, de modo que a comédia e o riso ficaram escassos. E, sem riso e comédia, sumiram igualmente as lágrimas e o choro, pois não havia mais o que se poderia exprimir além dos pensamentos. Ou melhor, sem as palavras e os seus sons, não havia mais a vontade de exprimir sentimentos, os quais dependiam exatamente das palavras, pois, como se sabe, nenhuma sentença verbal ou canto traduz uma amizade, um desejo, um perdão, uma bênção, um ódio ou uma esperança. Sem sons, o ato de dar, de receber e de retribuir palavras, músicas, brindes, beijos e presentes sumiu. As descontinuidades entre os sons foram suprimidas pelas continuidades dos pensamentos, o que fez com que a humanidade fosse atingida por um enorme silêncio, pois ninguém precisava produzir sons para implorar, dar, perdoar, perguntar, discutir, rir, protestar ou jogar conversa fora. Viviam todos num silêncio profundo lançando mensagens telepáticas uns aos outros e, quando souberam que seus ancestrais usavam da fala para a comunicação, ficaram intrigados e com inveja. Foram ouvir o mar e os ventos cujos sons lhes pareceram encantadores.

Como todas as portas humanas, a novidade da telepatia também trouxe seus problemas, pois o pensamento decorria de línguas naturais que eram variadas, mas que, com a evolução da comunicação pelo pensamento, perderam seus lastros, suas concretudes e suas diferenças. Agora ninguém podia dizer aquilo que só poderia ser dito em inglês, alemão, russo, português, tupi ou chinês. A universalização absoluta do telepático produziu uma perda irreparável nos modos de dizer porque o pensamento puro se fazia numa só língua: uma espécie de Esperanto que juntava todos os idiomas vivos e mortos, antigos e modernos, mas que não era língua nenhuma. Dizem que a partir da telepatia, a poesia, a literatura, a música e os mitos acabaram.

E os homens, como sempre, arrependeram-se e pediram de volta as suas línguas antigas que permitiam o milagre das compreensões sempre incompreendidas. Mas era tarde demais....

:. Roberto DaMatta

terça-feira, 27 de agosto de 2013

De volta ao café :. Drauzio Varela


A cafeína é a única droga psicoativa que podemos usar sem o menor sentimento de culpa. Há um ano, fiz essa afirmação nesta coluna depois de ler um artigo do "The New England Journal of Medicine", a revista médica de maior circulação mundial. Semanas atrás, a Folha resumiu um estudo publicado na revista "Mayo Clinic Proceedings" que aponta em outra direção. Com base nessa aparente contradição, João Luiz Neves, de Curitiba, enviou para o Painel do Leitor a pergunta a mim dirigida: "E agora, doutor, como proceder?". Somos bombardeados diariamente com mensagens de saúde conflitantes. A internet está abarrotada de sites e de e-mails que se propagam feito vírus, para exaltar os benefícios do alho, do limão, da maçã, do tomate orgânico, da berinjela e até da urinoterapia. O risco dessas informações médicas desencontradas é deixar o leitor descrente de todas. Por essa razão, e pela importância do café em nossas vidas, vou comparar as duas pesquisas. O estudo do "New England" foi patrocinado pelos Institutos Nacionais de Saúde, dos Estados Unidos. Nele, foram incluídos 229.119 homens e 173.141 mulheres saudáveis, com idades entre 50 e 71 anos. De acordo com o número de xícaras tomadas diariamente, o grupo foi dividido em dez categorias. Durante os 14 anos de acompanhamento, foram a óbito 33.731 homens e 18.784 mulheres. Depois de eliminar fatores como cigarro (especialmente), sedentarismo e obesidade, ficou claro haver uma relação inversa: quanto mais café, menor o número de mortes. Além de diminuir a mortalidade geral, tomar café reduziu o número de óbitos por diabetes, doenças cardiorrespiratórias, derrames cerebrais, ferimentos, acidentes e infecções. As mortes por câncer não foram afetadas. O efeito protetor foi diretamente proporcional ao número de xícaras ingeridas diariamente. A diminuição mais acentuada da mortalidade aconteceu no subgrupo de seis xícaras ou mais por dia: redução de 10% nos homens e 15% nas mulheres. Essa associação foi independente da preferência por café descafeinado ou não, sugerindo que a proteção não ocorre por conta da cafeína. Vamos à publicação da revista da "Mayo Clinic". Durante 17 anos, foram acompanhados 43.727 participantes. Nesse período, ocorreram 2.512 mortes, das quais 32% por doenças cardiovasculares. Comparados com os que não tomavam café, entre os bebedores contumazes do sexo masculino --definidos como aqueles que consumiam diariamente mais de quatro canecas de oito onças (equivalentes a cerca de 240 mililitros)-- houve aumento da mortalidade geral. Nas mulheres, não houve diferença estatisticamente significativa. Entre os participantes com menos de 55 anos, no entanto, tomar mais do que as quatro canecas por dia aumentou a mortalidade em 56% entre os homens e 113% entre as mulheres. Não houve associação entre consumo de café e mortalidade por doenças cardiovasculares. Nesse caso, como relacioná-lo com as mortes por infecções, acidentes automobilísticos ou câncer? Na comparação, o primeiro estudo tem evidências mais confiáveis: incluiu dez vezes mais participantes, acompanhados por período semelhante (14 versus 17 anos), que foram divididos em dez grupos em ordem crescente da quantidade de café ingerido por dia. Todos eles se beneficiaram :. No segundo estudo, só tiveram a mortalidade aumentada aqueles que tomavam mais de quatro canecas de 240 mililitros por dia. Ou seja, foi prejudicado apenas quem tomou mais de um litro por dia, durante 17 anos, em média. É inexplicável porque as mulheres, quando analisadas globalmente, não apresentaram mortalidade mais alta, enquanto no subgrupo com menos de 55 anos o aumento foi de 113%. O problema com ambos os estudos é que são retrospectivos: a decisão de tomar ou não café foi tomada no passado, de acordo com a vontade pessoal. O ideal é que fossem prospectivos, nos quais os participantes seriam acompanhados só depois de sorteados ao acaso para fazer parte do grupo dos abstêmios ou dos tomadores de café. Por razões óbvias, uma pesquisa com essas características jamais será realizada. Por isso, caro João Luiz, pode tomar seu café sem remorsos. Por via das dúvidas, faça como eu e todas as pessoas de bom senso: evite beber mais do que um litro por dia...

Drauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Ilustrada".

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O difícil problema do consciente :. Marcelo Gleiser

Existem vários modos de formular a questão, mas eis um: como o cérebro, um apanhado de 80 a 100 bilhões de neurônios, gera a experiência que temos de sermos nós?
Gostaria de retornar a um assunto que deixa muita gente perplexa, inclusive eu: a natureza do consciente e como ele "surge" no nosso cérebro. Se você acha que sabe a resposta, provavelmente não entende a questão. Nenhum cientista ou filósofo sabe como respondê-la...Costumamos achar que sabemos o que é o mundo real, esse que vemos à nossa volta. Basta abrir os olhos, apurar os ouvidos, e temos esse retrato do que é a realidade, baseado na nossa percepção sensorial. Mas será que é só isso? Será que o que vemos e ouvimos pode ser chamado de realidade? Um dos aspectos mais extraordinários da ciência é como ela nos permite ampliar nossa visão do real. E um dos aspectos mais paradoxais é que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos clara nos é a natureza da realidade. Platão, na Grécia Antiga, já antecipara o problema. Em sua alegoria da caverna, ele imagina um grupo de "escravos" acorrentados em uma caverna desde o nascimento. A percepção da realidade deles se restringe à parede da caverna, que é tudo que podem ver. Para eles, o que aparece na parede é o mundo real. Sem que os presos soubessem, atrás deles um grupo de filósofos fizera uma fogueira que lançava luz na parede. Em frente ao fogo, os filósofos seguravam objetos e os escravos viam as sombras projetadas na parede, achando que os objetos eram reais. Obviamente, a projeção não correspondia ao objeto: por exemplo, uma bola aparecia como um círculo. O ponto de Platão é que nossa percepção sensorial cria uma noção falsa do real. Como disse a raposa ao Pequeno Príncipe, "o essencial é invisível aos olhos".Na história da física, o que chamamos de realidade também muda. Antes de Copérnico, o Cosmo tinha a Terra no centro e o Sol e planetas girando à sua volta. O Universo era fechado na forma de uma esfera e Deus e sua corte habitavam a esfera mais externa. Quando Newton propôs sua teoria da gravitação, percebeu que o Cosmo não poderia ser finito. Apenas um Cosmo infinito, onde as estrelas estavam separadas e equilibradas (precariamente), seria estável. De repente, a realidade muda e o homem se vê num Universo infinito, envolto em trevas. Qual o lugar do homem nesse novo Universo? Para complicar, as ideias de Newton levaram a um determinismo radical onde o futuro poderia ser calculado, ao menos em princípio, a partir do presente. Se isso fosse verdade, não haveria mais o livre arbítrio; todas as ações estariam predeterminadas pela precisa maquinaria cósmica. A liberdade que achamos ter seria uma ilusão. Felizmente, esse determinismo não durou muito. No início do século 20, a física quântica pôs fim à noção de que podemos usar a física como oráculo. O princípio de incerteza de Heisenberg mostrou que não podemos medir a posição e a velocidade de uma partícula conjuntamente, o que torna a determinação precisa de seu futuro impossível. Ademais, o mundo quântico nos mostra que a própria natureza da realidade é elusiva: não vemos um elétron ou um fóton, sua existência é medida com detectores, aferida indiretamente. O mundo do muito pequeno, que tanto define nossas vidas através das tecnologias digitais que usamos, é um mundo inacessível aos sentidos. Não podemos nem mesmo atribuir existência a uma partícula antes de a detectarmos: a realidade é definida pelo modo como interagimos com ela.Isso cria um novo modo de se ver o mundo: sempre existirão aspectos da realidade que são desconhecidos; mas o surpreendente é que existem outros que são inacessíveis.  O filósofo australiano David Chalmers chama a questão de "o difícil problema do consciente". Faz isso para diferenciá-los dos demais problemas que poderão ser resolvidos pela pesquisa nas ciências neurocognitivas e neurocomputacionais. Mesmo que isso possa demorar um século, o nível de dificuldade não se compara ao do problema que, alguns especulam, é insolúvel. Eis alguns dos problemas que Chalmers considera fáceis: a habilidade de discriminar, categorizar e reagir a estímulos externos; a integração de informação sensorial; o controle intencional de comportamento; a diferença entre dormir e estar acordado. Essas questões são localizadas, passíveis de uma descrição reducionista de como funcionam partes do cérebro, usando a conexão entre neurônios e grupos de neurônios. Henry Markram, na Suíça, recebeu uma bolsa de 1 bilhão de euros para liderar o Projeto do Cérebro Humano, uma colaboração de centenas de cientistas que visa criar uma simulação do cérebro humano. Para tal, precisarão de computadores capazes de bilhões de bilhões de operações por segundo, um fator cerca de 50 vezes maior do que os supercomputadores mais rápidos do mundo são capazes hoje. Markram e os "computacionalistas" acreditam que se o nível de informação da simulação for suficientemente detalhado, incluindo desde o trânsito de neurotransmissores entre sinapses até as milhares de conexões interneuronais em partes diferentes do cérebro, a simulação funcionará como um cérebro humano dotado de um consciente tão complexo quanto o nosso. Markram acredita que o problema "difícil" não existe: tudo pode ser obtido de neurônio a neurônio.Apesar de concordar com a relevância científica do projeto de Markram, não vejo como uma simulação poderá criar uma entidade com consciência semelhante à humana. Talvez crie algum outro tipo de consciência, mas não a nossa. Outro filósofo, Thomas Nagel, mostrou que somos incapazes de perceber a experiência consciente de outro cérebro. Como exemplo, usou os morcegos, que constroem sua realidade a partir da eco-locação. Usando ideias do linguista Noam Chomsky, que defende a limitação cognitiva de cada cérebro (por exemplo, um rato jamais poderá falar), Nagel mostra que não podemos entender o que é "ser" um morcego. Essa é outra versão do problema de Chalmers, que o filósofo Colin McGinn chama de "clausura cognitiva". Não existe um modo de capturar a essência do consciente, pois este não se presta a uma análise metódica das propriedades do cérebro: está em toda a parte e em nenhuma parte. Talvez, McGinn especula, uma inteligência mais avançada saiba responder a pergunta. Mas nós, simulações ou não, temos que viver com o mistério :.
   Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A COR DO SOM & O SOM DAS CORES :.




No passado, a sinestesia era vista como uma aberracao neurologica. Hoje, é inspiracao para designers. No seculo 19, o cientista francis Galton, primo de Charles Darwin, fez uma descoberta curiosa: um numero infimo da populacao (no seu calculo, uma em cada 200mil pessoas), ao se deparar com um numero, o cinco, o via colorido. O "5" era percebido por algumas na cor azul-escuro. Ja outra pessoa enxergava o '2" em amarelo. Nao era la uma condicao la muito poetica ou agradavel aos pacientes.pois ela beirava a alucinacao e causava sofrimento. Ele chamou esta sindrome de "sinestesia", a mistura dos sentidos. Atualmente, gracas a neurociencia, a sinestesia deixou de ser um bicho de sete cabecas. Despida do velho rotulo de disfuncao cerebral, a sinestesia comeca a ser usada por empresas de design e institutos de tecno;logia para desenvolvimento de produtos inovadores, que rompem as barreiras convencionais dos sentidos. Imagine uma analise 'sonora" de sangue nos laboratorios. Um metodo de degustacao de chocolates por imagens. ou alfabetizacao por odores agradaveis. a imaginacao eh o limite."O design sinestesico baseia-se no melhor alinhamento possivel entre os aspectos do design & percepcao multisensorial dos objetos pelas pessoas", diz Michael Haverkamp, da Universidade de Colonia, na Alemanha. Haverkamp investiga as percepcoes corporeas do som. seu trabalho, como o de outros pesquisadores daarea, ajudou designers a desenvolver interfaces graficas de tocadores de musica de computador, como o iTunes & o Windows Media Player. Na verdade, trata-se daquelas que aparecem na tela do computador enquanto a musica toca- um dispositivo que muita gente evita, reclamando de dores de cabeca, depois de algum tempo de uso. No entanto, ha uma outra aplicacao musical sinestesica que promete se tornar uma revolucao- & que nao tem nada a ver com entreterimento. Trata-se dos princios da sinestesia associados aas analisesclinicas de laboratorio. A Universidade de Minnesota esta desenvolvendo uma "analise sonora" de sangue. Atualmente, nos exames convencionais, o sangue coletado eh escaneado visualmente. Cada componente corresponde a uma cor. Porem, os tons muitas vezes se sobrepoem & se confundem, o que dificulta o diagnostico. A universidade americana criou um softoware que relaciona sons aos componentes quimicos com alturas & timbres diferentes. Ao todo, o laboratorio criou uma "orquestra" de 57 sons para analize clinica."Hoje eu consigo ouvir anomalias, onde antes o olho nao conseguia perceber diferencas" diz o doutor Charles Sweeley, chefe do departamento. Uma outra linha de pesquisa envolve o desenvolvimento de material pedagogico para alfabetizacao. a americana Frog Design desenvolve um sistema de leitura no qual a crianca pode associar odores aas letras. O som do "A" pode vir acompanhado do delicado odor da maca(apple), e o "C" do delicioso aroma de chocolate. A alfabetizacao pode se tornar muito prazerosa( & ca entre nos criar um milionario filao de "odorbooks"). 'Nos estaremos perdendo oportunidades preciosas, se nao formos capazes de explorar todo o potencial dos sentidos', diz laura Richardson, designer & diretora da Frog :.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O pesadelo Americano :. Da decadencia do suburbio ao renacimento da metropole

 O romance entre o "americano"& seu automóvel tem raízes profundas e; é baseado numa relação diferente vivida pelo europeu, a situação revela as dificuldades do transporte publico nas Américas , aonde o automóvel reina soberano ante ao esvaziamento humano. Mas de certa forma, esse urbanismo que começou a tomar forma com a difusão do uso do carro nos anos 1920 e se configurou como modelo americano por excelência nos anos 1960 começa a ruir

DEFESA Depois da Segunda Guerra Mundial e no auge das teorias conspiratórias da Guerra Fria, a ideia de desfazer grandes aglomerados urbanos e espalhar a população por vastas faixas de terra ganhou força quase como uma estratégia de defesa nacional: "Havia a crença real de que um ataque nuclear era iminente, então levar as pessoas para longe dos grandes centros ajudaria a salvar muitas vidas americanas", diz Vishaan Chakrabarti, professor da Universidade Columbia. "Isso estava na cabeça dos políticos e ajudou a impulsionar a economia do país por causa dos altos índices de consumo associados ao estilo de vida suburbano, que exige gasolina, carros e toda a indústria para aquecer casas gigantescas."
No imaginário popular, o subúrbio moldou a imagem do país, em oposição aos centros apertados das metrópoles europeias. Edward Ruscha, artista de Los Angeles, fez livros e livros com séries de fotografias de grandes piscinas ardendo sob o sol californiano, bombas de combustível resplandecentes e imensos estacionamentos asfaltados, algo entre a ode à bonança de um estilo de vida ancorado num horizonte de consumo sem limites e um ataque velado às armadilhas que esse modelo poderia acarretar. Seriados como "Desperate Housewives" e "Weeds", que encerraram suas temporadas no ano passado, ironizam o vazio da vida afastada dos grandes centros e o tédio que acomete dondocas donas de casa, homens em crise de meia idade e também seus filhos adolescentes e maconheiros. Quatro décadas atrás, Larry Clark, em sua série fotográfica "Tulsa", desfez qualquer ideia de idílio suburbano ao mostrar garotos injetando heroína na veia e brincando com revólveres em plena luz do dia. São as mesmas entranhas torpes desse modelo que Sam Mendes tentou expor em "Beleza Americana", filme de 1999 com uma galeria de personagens disfuncionais e caricatos, um ataque à ideia de ilhas de tranquilidade que os subúrbios sempre ostentaram ser.

FREIO Demógrafos, como William Frey, e urbanistas, como Vishaan Chakrabarti, Edward Glaeser, Richard Florida e outros, hoje chegam a decretar a morte dos subúrbios, que consideram insustentáveis do ponto de vista econômico e pouco eficientes como modelos de planejamento urbano. Em entrevista ao jornal "Financial Times", Frey fala em "puxar o freio" de um sistema que pautou os EUA até hoje. É uma metáfora que faz ainda mais sentido quando se leva em conta a enorme dependência dos subúrbios do uso do automóvel. Detroit é o caso mais flagrante. A cidade que se ergueu à custa da indústria automobilística faliu porque os moradores ricos debandaram para os subúrbios a bordo de seus carros, deixando no centro só as classes mais pobres, que pouco contribuem com impostos. Mas é das cinzas desses centros combalidos que as novas cidades estão surgindo. Mesmo em Detroit, os únicos sinais de vida estão no miolo da cidade, ruas que podem ser frequentadas a pé e que aos poucos vão prescindir dos carros, já que está em estudos a ressurreição de um sistema de bondes.No país dos SUVs o número de jovens que dirigem também está em queda livre. Dados recentes mostram que 20% da população entre 20 e 24 anos de idade não tem carteira de habilitação. Na faixa dos 18 anos, esse índice é de 40%. No total, o número dos sem carteira dobrou nos últimos 30 anos.
Isso ajuda a explicar por que o bonde urbano e grandes projetos de transporte público, como o de Charlotte, na Carolina do Norte, estão com toda a força. Enquanto o metrô de superfície ou linhas de ônibus não chegam a essas cidades desacostumadas ao transporte coletivo, a onda de bicicletas de aluguel ganha fôlego impressionante, de Austin a Nova York. Nessa troca das quatro rodas por duas, ou mesmo pelos pés, volta a entrar em cena o poder de atração das grandes metrópoles, a reboque da revitalização de grandes centros urbanos antes degradados. Há dois anos, pela primeira vez, o crescimento da população nas metrópoles americanas bateu o aumento no número de residentes em seus subúrbios.:"Hoje mais pessoas vivem nas cidades do que nos subúrbios. Estamos vendo surgir uma nova geração urbana nos Estados Unidos", diz Vishaan Chakrabarti, que acaba de lançar "A Country of Cities" [Metropolis Books, 252 págs., R$ 93,50], uma espécie de manifesto contra os subúrbios. "Essas pessoas dirigem menos, moram em apartamentos mais econômicos, têm mais mobilidade social e mais oportunidades."
Nessa mesma linha, arquitetos e urbanistas vêm escrevendo livro atrás de livro no afã de explicar esse tal ressurgimento da metrópole como panaceia urbanística global.
Além de Chakrabarti, Bruce Katz e Jennifer Bradley escreveram "The Metropolitan Revolution" (Brookings Institution Press), sobre a volta ao transporte público como remédio para uma economia frágil, Edward Glaeser lançou "The Triumph of the City" [Penguin, 338 págs., R$ 50], uma ode às cidades com tons que beiram a autoajuda, enquanto Richard Florida faz uma apologia às classes criativas que emergem nas metrópoles em "The Rise of the Creative Class" (Basic Books).

INVERSÃO Esse coro sublinha o que teóricos americanos batizaram de "inversão geográfica do sonho americano": a volta ao centro dos mais afluentes que migraram para o subúrbio atrás de calma e tranquilidade e hoje se veem atolados em dívidas impossíveis de pagar e reféns do automóvel.: "Isso que estamos vendo agora em Detroit é a crônica de uma morte anunciada", diz Janaina Maquiaveli Cardoso, autora de "Cidades em Miniatura" [Comunicação de Fato, 132 págs., R$ 35], um estudo recente que compara a revitalização do Meatpacking District, em Nova York, e os planos para reconfigurar a região da Luz, no centro de São Paulo:
"É muito mais caro deslocar as pessoas para o subúrbio do que adensar o centro. O interesse na revitalização do centro vem da percepção de que o que movimenta o dinheiro são as grandes cidades e suas redes de conexão internacionais: a cidade e o centro são os lugares ideais para essa economia."
Do Meatpacking à Luz, parece estar em jogo a retomada de valores básicos para um urbanismo que prioriza a vida agitada das calçadas, o comércio de rua e soluções pontuais para problemas de bairro. No lugar de grandes intervenções, querem reabilitar uma cartilha lançada pela norte-americana Jane Jacobs (1916-2006), cujo ideário perdura em "Morte e Vida de Grandes Cidades", de 1961, hoje considerado um clássico dos estudos urbanos.
Numa Nova York em plena ebulição e no auge da transição de uma velha economia industrial para o capitalismo de serviços de hoje, Jacobs, uma jornalista do Village, então um bairro de classe média e imigrantes, foi quem, por cerca de dez anos, levantou a voz contra os projetos hiperbólicos de Robert Moses, encarregado do poder público para reconfigurar e desafogar o trânsito da cidade. Os protestos de Jacobs evitaram que fosse construído ali um elevado de oito faixas de largura que arrasaria 14 quarteirões do sul de Manhattan, hoje um dos pontos mais valorizados da ilha --caro, talvez, por concentrar uma vida urbana intensa, que lota os cafés e butiques dia e noite.

POÉTICA DO PEQUENO "Está havendo um revival dessas ideias da Jane Jacobs. Ela mostra como as grandes estruturas desumanizam a cidade, matam a vida na rua", diz Guilherme Wisnik, curador da próxima Bienal de Arquitetura de São Paulo, que começa em outubro. "Agora se dá mais valor a uma poética do pequeno, é uma crítica às grandes obras."Numa cidade como São Paulo, isso significa uma descrença cada vez maior no modelo de condomínios fechados que seduziu a classe média desde os anos 1990 e a inviabilidade crescente de projetos como a Granja Viana ou Alphaville, que se tornam inacessíveis na hora de pico no trânsito. Mesmo bairros dentro do perímetro da cidade, como o Morumbi, na zona oeste de São Paulo, já sofrem com índices mais altos de criminalidade e congestionamentos nas garagens dos prédios, em contraponto à valorização do centro, em especial a rua Augusta, que virou um dos maiores focos da especulação imobiliária por estar encravada no meio da cidade. Enquanto empreiteiras seguem construindo pirulitos a todo vapor, alguns espaços da maior metrópole brasileira vêm cedendo às ideias de um urbanismo mais saudável. Mesmo com um projeto que deixou a desejar, a reforma da praça Roosevelt, por exemplo, é elogiada por arquitetos e urbanistas por estabelecer um espaço de fato público numa zona antes inóspita. Perto dali, um complexo de equipamentos culturais do município, batizado Praça das Artes, cria uma ilha de cultura que se funde ao entorno da região central.

CIDADES COPYLEFT Muitas das soluções para esses contextos urbanos revigorados partiram de suas populações locais, que também prescindiram do poder público ou só recorreram a ele em última instância, na hora de aprovar as obras maiores. Num eco da batalha entre Jane Jacobs e Robert Moses, casos como a transformação de um ramal ferroviário desativado num parque, o High Line, em Nova York, ou intervenções mais modestas, como a criação de habitação de baixa renda no velho edifício União, no centro de São Paulo, são exemplos de renovação espontânea que partem dos moradores dos bairros. Giselle Beiguelman, pesquisadora de cultura urbana e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, vê aí casos do chamado "urbanismo copyleft".Um exemplo disso foi a ação, durante a última Virada Cultural em maio, em São Paulo, de um coletivo de arquitetos que projetou luzes sobre os prédios vazios do centro, oferecendo um contraponto silencioso à festa ao mostrar que o palco do espetáculo fica vazio a maior parte do tempo e poderia servir de moradia "É um urbanismo que surge do embate com a cidade", diz Beiguelman. "Está afinado com a cultura do it yourself', de um urbanismo de código aberto, que traz regras mais claras e explícitas."Também tem a ver com as manifestações espontâneas que varreram o globo, da Primavera Árabe a Istambul e São Paulo, lugares em que o espaço público no centro das cidades ganhou nova ressonância espacial e política, palcos de um movimento que, em última instância, busca melhorias urbanas. Nesse ponto, vale lembrar que os embates em Istambul começaram para evitar que um parque se transformasse em shopping, talvez o símbolo mais claro da obsolescência de um modelo urbanístico que sequestra o espaço público e transforma o que seria a vida das ruas em praças de alimentação e salas de cinema multiplex. Depois de uma onda de protestos que deixou quatro mortos e 7.500 feridos, os turcos conseguiram reverter a decisão do governo e garantiram, por enquanto, a preservação de uma das únicas áreas verdes no centro de Istambul.

NOVAS GEOGRAFIAS Mais verdes ou ainda cinzas, as metrópoles passam agora não só por uma reconfiguração de seus centros mas se articulam numa rede de "novas geografias de centralidade", nas palavras da urbanista norte-americana Saskia Sassen. Uma das maiores estudiosas do assunto, a professora da Universidade Columbia viu ali mesmo, em Nova York, o processo que fez do Brooklyn, bairro de classe média e grande população judaica, um reduto "hipster" ultracaro. Se, por um lado, o novo Brooklyn fez a felicidade do mercado imobiliário e injetou vida nova num pedaço da cidade antes ignorado pelos mais ricos, a exemplo do que já ocorrera no Meatpacking, é também um sinal de encarecimento insustentável, que expulsa as classes trabalhadoras e reserva o bairro a uma elite global: "Esses espaços acabam concentrando os super-ricos", afirma Sassen. "O grande problema então passa a ser a desigualdade, o que gera insatisfação e movimentos populares como os que temos visto, ocupando praças e ruas." Adrian Ellis, arquiteto britânico radicado nos Estados Unidos, resume esse quadro lembrando que há mais tráfego aéreo entre Nova York e Londres do que entre a maior cidade americana e qualquer outro ponto dos EUA. "São pessoas e dinheiro viajando cada vez mais rápido", diz Ellis. "Essas são cidades globais que viram pontos nevrálgicos do mundo, que concentram todo o capital." Depois da gentrificação, ou processos que alguns já batizaram de "Brooklynização" do centro das cidades, urbanistas já anunciam a era da "plutocratização" das metrópoles. E é daí que poderão surgir as próximas revoluções.

por SILAS MARTÍ

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Se eu Cozinho, vc lava? :.

O domínio da técnica de cozer alimentos representou vantagem competitiva para o homem em relação a outros animais. O aprendizado lhe permitiu obter rápida e facilmente combustível energético para alimentar 86 bilhões de neurônios e deu impulso a funções cerebrais cognitivas, não ligadas à sobrevivência.



O que tem o cérebro humano de tão especial? Por que nós estudamos o cérebro de outros animais, e não vice-versa? O que o nosso tem ou faz que nenhum outro alcança?

Quando me interessei por essas questões, cerca de dez anos atrás, era consenso na área que todos os cérebros de mamíferos -incluindo o humano- eram construídos da mesma maneira, como versões maiores ou menores de um mesmo plano-padrão e, portanto, com um número de neurônios sempre proporcional ao tamanho daqueles, ainda que não linearmente.Uma das implicações básicas desse raciocínio é que dois cérebros de um mesmo tamanho deveriam possuir número semelhante de neurônios. Considerando que neurônios são as unidades funcionais de processamento de informação do cérebro, era de esperar que os donos de cérebros de dimensões idênticas exibissem habilidades cognitivas semelhantes.
Mas não é o que se vê. Vacas e chimpanzés têm cérebros de cerca de 400 gramas; capivaras e macacos, de 70-80 gramas; mas chimpanzés e macacos são capazes de comportamentos muito mais variados, complexos e flexíveis do que seus parentes não primatas de tamanho cerebral equivalente. (Para ser absolutamente correto, é preciso reconhecer a possibilidade de vacas e capivaras terem uma vida mental interior tão rica que até escolham não deixar suas habilidades mentais transparecerem. Mas é bem pouco provável: as diferentes habilidades de cérebros de porte igual como esses são uma primeira evidência de que órgãos diferentes não devem ser apenas versões maiores ou menores de um mesmo plano básico.) Mais problemática ainda é a outra inferência da suposta universalidade das regras de construção dos cérebros: a de que os maiores deveriam sempre possuir mais neurônios do que os menores. Ou seja, quanto maior o órgão, mais cognitivamente capaz seu dono deveria ser. Desse modo, o maior cérebro na face da Terra também deveria ser o mais capaz.
Naturalmente, nós nos consideramos a espécie mais capaz de todas. E aqui está o paradoxo: não possuímos nem de longe o maior cérebro de todos. O de elefantes, que oscila entre quatro e cinco quilos, é cerca de três vezes maior do que o nosso, que pesa em geral de 1,2 kg a 1,5 kg. Os de baleias chegam a pesar nove quilos. Se fôssemos nos fiar pela lógica, então, elas é que deveriam estar nos estudando. (O escritor e comediante britânico Douglas Adams, morto em 2001, era quem sabia o que andava pelos pensamentos de um cachalote, conforme segredou n' "O Guia do Mochileiro das Galáxias".) É por causa dessa discrepância que, para explicar nossa superioridade cognitiva, por muito tempo a ciência recorreu ao argumento de que o cérebro humano era especial, literalmente extraordinário: uma exceção às regras. Outros podiam até ser maiores; mas o nosso devia ser melhor. Ele parece mais avantajado do que o "necessário" para dar conta das funções do corpo. O que significa que sobra córtex cerebral para funções cognitivas, e não meramente vegetativas. 
A lógica por trás desse argumento da encefalização máxima no ser humano é a de que o tamanho do cérebro geralmente acompanha o do corpo. Por isso, uma baleia que pesa várias dezenas de toneladas supostamente precisaria ter um cérebro maior do que o humano -mas que serviria apenas para dar conta do corpo, sem "restar" córtex cerebral para tarefas mais complexas. 
A maior prova da suposta enorme encefalização do homem, no entanto, viria da comparação da nossa espécie com grandes primatas. Gorilas, por exemplo, chegam a ser duas a três vezes maiores do que humanos, do que se tira que o cérebro deles deveria ser maior do que o nosso -mas, ao contrário, o humano é que é três vezes maior do que o do grande macaco.
A necessidade energética também faz o cérebro humano parecer especial. Embora represente apenas 2% do peso do corpo do homem, o órgão consome sozinho 25% de toda a energia usada por ele num dia: são cerca de 500 kcal de um total de 2.000 calorias diárias, simplesmente para manter o aparato mental funcionando. Em outros animais, em comparação, o custo relativo do cérebro chega a no máximo 8% do gasto energético total do organismo.
EXCEÇÃO
Esse era o consenso quando comecei a estudar cérebros de humanos e outros bichos: o nosso é especial, por ser maior do que "deveria ser" e custar muito mais energia do que aquilo que se esperaria para o seu tamanho. Mas essa unanimidade entrava em choque com minha formação em biologia, ciência que busca entender as regras que se aplicam à vida em geral. Por que as regras da evolução deveriam se aplicar a todos os outros animais, mas nós seríamos uma exceção?
Pensei que o problema talvez estivesse na premissa básica de que todos os cérebros de mamíferos seriam construídos da mesma maneira. Talvez dois cérebros de tamanhos semelhantes pudessem na verdade conter números de neurônios bastante diferentes; talvez um órgão enorme, como o do elefante, pudesse até ter menos neurônios do que um mais modesto. Talvez o cérebro humano tivesse mais neurônios do que qualquer outro, independentemente de sua dimensão -especialmente no córtex, sede de funções como o raciocínio abstrato.
Para mim, então, a questão mais importante passou a ser quantos neurônios tem o cérebro humano, e como isso se compara com outros animais. Dizia a lenda que temos 100 bilhões de neurônios -mas nenhum de meus colegas conhecia o estudo original que teria chegado a esse número e, em todas minhas buscas, nunca o localizei. Até onde sei, ninguém havia contado o contingente de neurônios humanos ou de outros animais.
A técnica disponível até então era impossível de se aplicar à totalidade do órgão -e, de toda forma, boa parte dos cientistas parecia acreditar que a questão já estava resolvida.
Inventei uma maneira de contar células no cérebro e tive a sorte de contar com o apoio do professor Roberto Lent, da UFRJ, que me cedeu seu laboratório quando eu não tinha nenhum. Eu ia contar células em sopas de cérebro.
Soa repulsivo pensar em transformar em sopa o que um dia foi o âmago biológico de uma pessoa, eu reconheço. Mas, veja bem, não é muito diferente do que já se faz em tantos laboratórios, que é contar cérebros em pedacinhos mínimos para analisar sob o microscópio. A diferença é que meus pedacinhos seriam tão menores que o conjunto viraria líquido.
A base do método é dissolver o cérebro em um detergente que destrói todas as membranas das células, mas mantém intactos os núcleos delas, que passam assim a flutuar, soltos, em suspensão.
Como o conjunto agora é líquido (com a aparência de um consomê claro), basta agitar a sopa para deixar os núcleos distribuídos homogeneamente e então extrair algumas amostras de volume definido para contá-los ao microscópio. Voilà: conhecendo-se o volume total da "sopa", basta uma regra de três para chegar ao número total de células no cérebro em apenas 15 minutos ao microscópio. Dois anos depois, sabíamos de que eram feitos os cérebros de uma dúzia de animais, entre roedores e primatas. E foi uma agradável não surpresa descobrir que, de fato, eles são construídos de modo distinto.
Entre espécies de roedores, conforme se multiplica no cérebro a quantidade de neurônios, essas células também aumentam de tamanho, o que faz com o que o órgão infle muito mais rapidamente do que ganha neurônios.
Mas entre primatas, cérebros maiores possuem mais neurônios cujo tamanho médio praticamente não aumenta -o que é uma maneira muito econômica, em termos de espaço, de ganhar neurônios. A consequência é que primatas sempre têm mais neurônios concentrados em um mesmo volume de cérebro do que roedores.
No cérebro humano, encontramos uma média de 86 bilhões de neurônios (a quem me diz que soa parecido com 100 bilhões, lembro que a diferença corresponde a um cérebro inteiro de babuíno). Desses, 16 bilhões compõem o córtex cerebral -provavelmente o maior número de neurônios em qualquer cérebro no planeta, mesmo nos maiores do que o nosso, o que acredito ser a explicação mais simples para nossa capacidade cognitiva notável.
Mas os "86 bilhões" deixam mesmo de ser apenas um número e ganham significado quando os cotejamos com o quinhão celular de outros animais. Como descobrimos que a relação entre o tamanho do cérebro e seu número de neurônios pode ser descrita matematicamente, pudemos calcular como seria o cérebro humano se fosse construído como um cérebro de roedor: com 86 bilhões de neurônios, um roedor genérico pesaria 89 toneladas e teria um cérebro de impossíveis 36 quilos (tamanho de uma criança de dez anos). Um órgão assim não seria viável, pois colapsaria esmagado pelo próprio peso.
O fato de não termos 89 toneladas nem um cérebro descomunal ilustra, então, o que deveria ser óbvio: não somos roedores nem possuímos um cérebro grande de rato. Comparar humanos a roedores e concluir que somos especiais em comparação a eles é, portanto, enredar-se num paralelo vazio, do tipo laranjas com maçãs.
Primatas que somos, é em relação a eles que devemos nos medir. E aqui a matemática mostra que um primata genérico com 86 bilhões de neurônios teria um cérebro de 1,2 kg (o que é bem próximo da nossa média) e um corpo de 66 quilos (dentro dos padrões). A conclusão nada surpreendente, mas ainda assim extremamente importante, porque contraria nossa suposta excepcionalidade, é uma só: temos um cérebro de primata. Nem mais, nem menos. (Divirto-me pensando que Darwin teria gostado de ler esta manchete: "Cérebro humano feito à imagem de outros cérebros de primata!".)
O cérebro humano, portanto, é notável, sim -mas não especial ou extraordinário, no sentido estrito da palavra. Fico satisfeita de ter contribuído à ciência uma descoberta que nos lembra de nosso lugar na natureza -o que deveria inspirar um pouco de humildade. Se não é especial, por que sorve tanta energia? Como já havia dados na literatura sobre o custo energético do cérebro de humanos e outros animais, agora que conhecíamos os montantes de neurônios ficara fácil fazer as contas.
Já trabalhando em meu próprio microlaboratório, cheguei à conclusão de que cérebros humanos, de macacos, babuínos e roedores têm gasto energético semelhante: uma média de seis quilocalorias diárias por bilhão de neurônios.
O custo total de energia de um cérebro é, portanto, uma simples função linear do número de neurônios que ele possui. Posto dessa maneira, o órgão humano mais uma vez apenas se encaixa no esperado: com seus 86 bilhões de neurônios, consome tanto quanto deveria -cerca de 500 kcal por dia.
ENERGIA
Como conseguimos esse número notável de neurônios? E, em particular, se grandes primatas são ainda maiores do que nós, por que eles não têm mais neurônios do que nós? Quando me dei conta de quão caro é ter uma enormidade de neurônios, passei a suspeitar que talvez grandes primatas simplesmente não conseguissem energia suficiente para sustentar concomitantemente um corpanzil e um cérebro grande. Com Karina Fonseca-Azevedo, aluna de iniciação científica, fiz as contas. Calculei, de um lado, quanta energia um primata consegue obter por dia com sua dieta típica de alimentos crus e, de outro, quanto "custa" um corpo de um certo tamanho e um cérebro dotado de um certo contingente de neurônios.
Depois, busquei as combinações de tamanho corporal e número de neurônios que um primata conseguiria sustentar comendo um certo número de horas por dia. Devido ao alto custo dos neurônios, descobri que existe um "toma lá, dá cá" entre neurônios e massa corporal. Um primata que come oito horas por dia conseguiria ba
ncar um máximo de 53 bilhões de neurônios -mas, neste caso, não teria como pesar mais do que 25 quilos. Para ficar maior do que isso e continuar energeticamente viável (ou seja, para não morrer de fome), seria preciso abrir mão de neurônios. Quando se come como um primata, ou se é corpulento, ou se tem um cérebro equipado com neurônios a não mais poder; não se deve aspirar a ambos. Uma alternativa, é claro, seria passar ainda mais horas por dia comendo. Mas isso é brincadeira perigosa que logo se torna irrealizável. Gorilas e orangotangos custeiam seus cerca de 30 bilhões de neurônios comendo oito horas e meia por dia -e, convenhamos, não conseguem fazer muito mais do que isso. Nove horas diárias de alimentação parecem ser o limite prático para um primata.
E nós, humanos? Com 86 bilhões de neurônios e 60-70 quilos de massa corporal, pela lógica, deveríamos passar mais de nove horas por dia comendo -o que naturalmente não é o caso, e nem seria possível. Se comêssemos como fazem os demais primatas, não deveríamos estar aqui. Como chegamos então aos 86 bilhões de neurônios, se nosso cérebro não custa nada a menos do que deveria e se não podemos passar o dia todo à mesa? A alternativa que resta é, de alguma maneira, extrair mais calorias das mesmas porções de alimento. Essa, sim, é uma alternativa extremamente interessante -e que casa com uma invenção creditada a nossos antepassados na época certa, cerca de 1,5 milhão de anos atrás: a cozinha. Cozinhar é essencialmente usar fogo para pré-digerir alimentos fora do corpo. Dito assim, não soa nada apetitoso. Mas produtos cozidos, muito mais macios, podem ser facilmente mastigados e triturados na boca, o que faz com que sejam totalmente digeridos por enzimas no estômago e absorvidos no intestino. O domínio dessa técnica permite ao homem extrair de alimentos até três vezes mais energia do que se eles fossem ingeridos crus -e o ganho é também de tempo, vale destacar. Cozinhar, pois, nos rende não só mais calorias como também tempo livre.
VANTAGEM
Graças à cozinha, o que até então era um risco cada vez maior -um cérebro fervilhando com neurônios- se tornou uma grande vantagem, principalmente agora que nossos antepassados tinham tempo disponível para direcionar seus neurônios a atividades mais interessantes do que pensar obsessivamente em comida, procurá-la e consumi-la. Essa me parece a explicação mais simples para a evolução tão rápida de um cérebro tão grande quanto o nosso -e somente do nosso. Com um órgão cheio de neurônios mantidos por alimentos cozidos, nossa espécie passou rapidamente da comida crua à ciranda de cultura, agricultura, civilização, mercados, eletricidade, geladeiras -todo esse aparato que hoje nos permite obter todas as calorias de que precisamos em uma sentada só na lanchonete da esquina. O que um dia foi a solução hoje passou a ser o problema: fomos da incerteza de calorias diárias ao excesso em cada refeição. E, numa reviravolta irônica da evolução, agora tentamos resolver o problema voltando à comida crua das saladinhas. (Ao pessoal do crudivorismo que perdeu sua "explicação" favorita de que "a comida crua era a alimentação dos nossos ancestrais" e me ataca dizendo que "você está errada, pois obviamente é possível comer só comidas cruas", eu respondo completando a frase deles com um "hoje em dia, quando temos na esquina de casa mercados de frutas e hortaliças já plantadas, colhidas e servidas -e geladeiras para preservar tudo". Mesmo assim, o preço do crudivorismo é alto: fome permanente, perda da saúde e de peso. Bom, esta eu concedo: comer exclusivamente alimentos crus é a única dieta verdadeiramente infalível que conheço.)
Qual é, então, a vantagem de ser humano? O que nós temos que nenhum outro animal tem -e que é a explicação mais simples para nossas vultosas habilidades cognitivas? "O maior número de neurônios no córtex cerebral", eu diria. E o que nós fazemos que nenhum outro animal faz, e que, de quebra, acredito ter sido fundamental para nos permitir chegar ao número enorme de neurônios corticais? Cozinhamos o que comemos. Nenhum outro animal cozinha -e, para mim, foi o que nos tornou humanos. Estudar o cérebro humano mudou minha maneira de pensar a comida. Hoje, toda vez que olho minha cozinha, faço reverências mentais a ela - e agradeço a nossos ancestrais por uma invenção que nos legou a humanidade.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL, 40, é professora da UFRJ, autora do livro "Fique de Bem com seu Cérebro" e do blog A Neurocientista de Plantão (www.suzanaherculanohouzel.com).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Salve Jorge, as festas juninas :.




Estimo que parte das razões que levaram multidões às ruas no mês de junho tem sua origem nos equívocos conceptuais presentes nas políticas públicas do governo do PT. Não conseguindo se desvencilhar das amarras do sistema neoliberal imperante no mundo e internalizado, sob pressão, em nosso país, os governos do PT tiveram que conceder imensos benefícios aos rentistas nacionais para sustentar a política econômica e ainda realizar alguma distribuição de renda, via políticas sociais, aos milhões de filhos  da pobreza.O Atlas da exclusão social – os ricos no Brasil (Cortez, 2004) embora seja de alguns anos atrás, mantém sua validade, como o mostrou o pesquisador Marcio Pochmann (O pais dos desiguais, Le Monde Diplomatique, outubro 2007). Passando por todos os ciclos econômicos, o nível de concentração de riqueza, até a financeirização atual, se manteve praticamente inalterado. São 5 mil famílias extensas que detêm 45% da renda e da riqueza nacionais. São elas, via  bancos, que emprestam ao governo; segundo os dados de 2013, recebem anualmente do Governo 110 bilhões de reais em juros. Para os projetos sociais (bolsa família e outros)  são destinados apenas  cerca de 50 bilhões. São os restos para os considerados o resto.Em razão desta perversa distribuição de renda, comparecemos como um dos países mais desiguais do mundo. Vale dizer, como um dos mais injustos, o que torna nossa democracia extremamente frágil e quase farsesca. O que sustenta a democracia é a igualdade, a equidade e a desmontagem dos privilégios.No Brasil se fez até agora apenas distribuição desigual de renda, mesmo nos governos do PT. Quer dizer, não se mexeu na estrutura da concentração da renda. O que precisamos, urgentemente, se quisermos mudar a face social do Brasil, é introduzir uma redistribuição que implica mexer nos mecanismos de apropriação de renda. Concretamente significa: tirar de quem  tem demais e repassar para quem tem de menos. Ora, isso nunca foi feito. Os detentores do ter, do poder, do saber e da comunicação social conseguiram sempre impedir esta revolução básica, sem a qual manteremos indefinidamente  vastas porções da população à margem das conquistas modernas. O sistema político acaba servindo a  seus interesses. Por isso, em seu tempo, repetia com frequência Darcy Ribeiro que nós temos uma das elites mais opulentas, antissociais e conservadoras do mundo.Os grandes projetos governamentais destinam porções significativas do orçamento para os projetos que as beneficiam e as enriquecem ainda mais: estradas, hidrelétricas, portos, aeroportos, incentivos fiscais, empréstimos com juros irrisórios do BNDES. A isso se chama crescimento econômico, medido pelo PIB que deve se equacionar com a inflação, com as taxas de juros e o câmbio. Privilegia-se o agronegócio exportador que traz dólares à agroecologia, à economia familiar e solidária que produzem 60% daquilo que comemos.       O que as multidões da rua estão reclamando é: desenvolvimento em primeiro lugar e a seu serviço o crescimento  (PIB). Crescimento é material. Desenvolvimento é humano. Significa mais educação, mais hospitais de qualidade, mais saneamento básico, melhor transporte coletivo, mais segurança, mais acesso à cultura e ao lazer. Em outras palavras: mais condições de viver minimamente feliz, como humanos e cidadãos e não como meros consumidores passivos de bens postos no mercado.  Em vez de grandes estádios cujas entradas aos jogos são em grande parte proibitivas para o povo, mais hospitais, mais escolas, mais centros técnicos, mais cultura, mais inserção no mundo digital da comunicação.O crescimento deve ser orientado para o desenvolvimento  humano e social. Se não se alinhar a esta lógica, o governo se vê condenado a ser mais o gestor dos negócios do que  o  cuidador da vida de seu povo, das condições de sua alegria de viver e de sua admirada criatividade cultural.As ruas estão gritando por um Brasil de gente e não de negócios e de negociatas; por uma sociedade menos malvada devido às desigualdades gritantes; por relações sociais transparentes e menos escusas que escondem a praga da corrupção; por uma democracia onde o povo é chamado a discutir e a decidir junto com seus representantes o que é melhor para o país.Os gritos são por humanidade, por dignidade, por respeito ao tempo de vida das pessoas para que não seja gasto em horas perdidas nos péssimos transportes coletivos mas liberado para o convívio  com a família ou para o lazer. Parecem dizer: “recusamos ser animais famintos que gritam por pão; somos humanos, portadores de espírito e de cordialidade que gritamos por beleza; só unindo pão com beleza viveremos em paz, sem violência, com humor e sentido lúdico e encantado da vida”. O governo precisa dar esta virada.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e autor de Virtudes por um outro mundo possível (3 vol) Vozes 2006. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A harmonia das esferas :. (atômicas) Marcelo Gleiser

A busca pela ordem, seja ela emocional ou material, é mola mestre da criatividade humana. Nos mais antigos relatos de Criação já encontramos narrativas onde o caos precede a ordem, as trevas a luz e, enfim, onde o processo de emergência da realidade material vem acompanhado de uma ordem que rege seu comportamento. Nas ciências, a busca pela ordem se manifesta nas leis da Natureza --princípios organizativos que visam descrever padrões de regularidade nos fenômenos naturais que observamos.
Poucos exemplos na história da filosofia e da ciência ilustram essa busca e as transformações do conhecimento humano tão claramente quanto o conceito da Harmonia das Esferas, cujas origens datam do período pré-Socrático da filosofia, em torno de 650 a.C. Foi Pitágoras quem propôs que as órbitas planetárias obedecessem a um espaçamento predeterminado por leis matemáticas independentes da história de formação do Sistema Solar e dos planetas: segundo ele e seus discípulos, as distâncias entre os planetas deveriam seguir padrões que espelhassem nos céus as harmonias da música: "Existe geometria no som das cordas; existe música no espaçamento das esferas", segundo um texto atribuído a ele. (Provavelmente não de sua autoria.)
Evidentemente, os estudiosos pitagóricos não sabiam que planetas e suas órbitas (elipses com maior ou menor excentricidade) são produto de uma história de formação que depende de uma dinâmica um tanto complexa, ainda hoje objeto de estudo da astronomia. Para eles, a geometria determinava a forma dos céus: as mesmas leis matemáticas atuavam em todas as escalas, do terrestre ao cósmico.
Esta visão foi revisitada pelo astrônomo alemão Johannes Kepler que tentou, no início do século XVII, dar nova vida aos conceitos pitagóricos. Ainda jovem, Kepler fez uma pergunta que determinou o rumo de sua produção científica: O que determina o número de planetas (6 na época, os visíveis a olho nu) e suas distâncias ao Sol? Sendo um pitagoriano munido de dados, Kepler buscou a resposta na geometria, que acreditava ser a linguagem que Deus usou para criar o cosmo.
O astrônomo propôs que os 6 planetas e suas distâncias eram determinadas pelos 5 sólidos perfeitos. (Dois deles, a pirâmide e o cubo, são bem familiares.) Arranjando-os um dentro do outro como bonecas russas, Kepler situou as órbitas planetárias no espaço entre os sólidos. Usando geometria, pôde calcular as distâncias que, com precisão de 5%, coincidiram com os dados.
A visão de Kepler nada tem a ver com a realidade; hoje, o número de planetas é 8 e não 6, e suas distâncias são determinadas pela história de formação do Sistema Solar.
Curiosamente, o sonho de Pitágoras e Kepler realizou-se na física atômica. As órbitas dos elétrons em torno do núcleo atômico obedecem a padrões geométricos semelhantes aos de cordas vibrando: cada órbita está relacionada a um padrão e tem uma energia associada; o elétron só pode estar nessas órbitas, espaçadas descontinuamente.
Ao contrário das órbitas planetárias, as órbitas eletrônicas e suas distâncias não são consequência da história do átomo, mas fixas matematicamente, justamente o que Pitágoras e Kepler queriam.

* Imagem :A grande rotunda do Museu Guggenheim, em Nova York, foi recentemente transformada -substituída, na verdade, por uma nova instalação grande James Turrell chamado Reign Aten

domingo, 16 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

Logo (tipo) + Marca (simbolo) = Logomarca




A comunicação através da imagem foi o primeiro recurso utilizado pelo homem para fixar e transmitir suas idéias. Hoje, o design vem preencher essa lacuna da comunicação abrangendo diversas áreas e se tornando cada vez mais um investimento indispensável para o sucesso mercadologico e institucional de empreendimentos de qualquer porte. È a imagem a serviço da informação, com poder de diblar idiomas e barreiras e de atuar no limite entre o conciente compreensivel e o inconsciente. Pois desde o inicio dos tempos à necessidade de se comunicar emergiu através de uma série deperguntas que são universais;
Quem sou eu?
Quem precisa saber?
Porque é preciso saber?
Como é que eles vão descobrir?
Como que eu quero que eles descubram?
A Imagem e a percepção ajudam a criar valor, sem imagem não existe percepção O design dos elementos essenciais da identidade visual, ou seja, a marca e o logotipo são apenas o inicio do processo da IDENTIDADE VISUAL. Em Projetos para o varejo, o Design precisa explorar como a identidade vai funcionar dentro de um ambiente de loja e como poderá afetar a experiência do consumidor; pois vivemos em um ambiente visual supersaturado, onde é fundamental assegurar que a solução é especial, única e diferenciada. Uma Identidade Visual é um “cavalo de batalha” em varias mídias e aplicações.  Uma logomarca precisa ser não somente distinta, mas durável :.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mural de Franco Giglio no Edificio Anita



Na rua Emiliano Perneta , esquina com a Lamenha Lins, obserevem o Edificio Anita, em cuja fachada existe um mural de Franco Giglio com motivos mouro / espanhol.
 O mural composto de dois paineis de mosaico de  pastilhas vitrificadas, o vidrotil novidade tecnoligica do final dos anos 50, está precisamente em um pateo interno, na entrada voltada para a rua Lamenha Lins.


Giglio nasceu em Dolceacqua, na Itália, em 1937, vindo para o Brasil aos 21 anos. Sem formação acadêmica, começou a trabalhar com outro italiano, Antônio Mucci, estabelecido em Minas, que, entre uma infinidade de obras musivas, legou o único livro escrito até hoje sobre mosaico no Brasil: Compêndio Histórico-técnico de Arte Musiva, publicado pela Editora Ao Livro Técnico em 1962, esgotado há muito tempo.


 Ao final dos anos 50, Mucci fora convidado a realizar o painel “A Evolução da Moeda através dos Tempos”, na cidade de Juiz de Fora –  obra que permanece bem preservada, no prédio da Secretaria Estadual de Fazenda, antigo edifício do Banco Mineiro da Produção – em mosaico de pastilhas vitrificadas . Convidou Giglio para acompanhá-lo na empreitada. O filho de Dolceacqua aprendeu a técnica e não mais a deixou, passando a exercê-la em Curitiba, onde fixou residência e ateliê.



 Franco Giglio tornou-se muralista, tendo realizado trabalhos em mosaicos para o Cemitério de Curitiba, para a Assembleia Legislativa do Paraná, para o Colégio Lins de Vasconcelos e para outros prédios públicos e residências particulares. De grande afabilidade, fez um círculo de amigos fiéis entre os artistas paranaenses. Poty Lazarotto confiou a ele a realização de um de seus painéis em azulejos mais vistosos, o Monumento ao Tropeiro, e insistiu com ele para abrir o portfólio e exibir  seus desenhos.


 Jaime Canet convidou Giglio para executar o mural de motivos ibéricos em homenagem a sua mae Anita Canet na entrada do Condominio Edificio Anita, o primeiro  exemplar da arquitetura modernista em  prédios residências, do ano de 1958 em Curitiba. O edificio, vanguarda na época, apresenta pilotis em forma de "V", torres em lâminas "descoladas em meio nivel"e composição de fachada com inspiração mouro/espanhol, caracteristica dominante na arquitetura residêncial curitibana dos anos 50. Neste periodo , tem inicio o uso de pastilhas e outros elementos cerâmicos que irão caracterizar os edificios residenciais na nossa cidade.




Em 1975, Giglio casou-se com Roseli de Almeida e retornou à sua querida Dolceacqua. Passou a residir em Mantova, depois em Verona – onde um incêndio, ocorrido em 1979, devastou grande parte de seus antigos desenhos. O artista veio a falecer em abril de 1982, aos 44 anos de idade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ode ao planeta :. TERRA por marcelo Gleiser



"Me lembro da decolagem, que é uma experiência inesquecível. Os motores foram desligados e me senti sem peso. Flutuei até a janela e vi que estávamos sobre a costa da África. Foi então que entendi que estava no espaço. Fiquei incrivelmente excitado pois era algo que queria fazer desde que tinha seis anos de idade. Esse depoimento, do astronauta americano Jeff Hoffman, que tripulou o ônibus espacial, faz parte de um minidocumentário incrível, inspirado no chamado "efeito visão total", sugerido pelo escritor Frank White em 1987 para descrever a profunda transformação emocional que astronautas sentem ao olhar para a Terra do espaço. (em inglês, chama-se "overview effect", que se traduz mal para o português. Escolhi "visão total" pois faz referência ao cerne do efeito, a visão total da Terra.) Eis o link do vídeo que sugiro a todos, mesmo se não souberem inglês: http://vimeo.com/55073825. "Você começa com uma expectativa do que vai ver, mas nada se compara ao que é visto de fato. É tão mais bonita do que você imagina, essa coisa dinâmica, brilhante, cheia de vida... É o nosso poema," disse Nicole Stott, astronauta da Estação Espacial Internacional. "As luzes das cidades, a linha separando noite e dia, estrelas cadentes passando abaixo da gente, as auroras dançando nos céus, as tempestades e os raios subindo e descendo... Tudo ao mesmo tempo, passando rápido pela espaçonave, tão difícil de descrever," disse outro. Edgar Mitchell, que ficou em órbita em torno da Lua numa missão Apollo enquanto seus companheiros estavam no solo, descreve como via a Terra, o Sol e a Lua passando a cada dois minutos e como o estudo da astronomia e da cosmologia-- que ensinaram-lhe como toda essa matéria, incluindo a nossa, veio de estrelas que explodiram bilhões de anos atrás e como toda a matéria tem os mesmos átomos-- deu-lhe um profundo sentido de união com a totalidade do Cosmos.
Em todos os depoimentos se vê uma profunda reverência com o nosso planeta, uma emoção primal que remete os que a sentem a um estado de transcendência em que o "eu" deixa de ser importante, e o que existe é o coletivo. Os astronautas da Estação Espacial Internacional, em especial, passam a maior parte de seu tempo livre olhando para a Terra, observando seus detalhes em um estado contemplativo que só pode ser descrito como espiritual. Uma coisa é estar aqui, no meio da confusão, das vozes e luzes, do crime, das disputas e guerras. Outra é ver tudo de longe, como uma entidade única, o peixe que vislumbra o oceano como um todo e entende de onde vem. O "efeito visão total" traz uma compreensão da profunda unidade entre a Terra e a vida nela, um planeta azul viajando pelo espaço, uma espaçonave ele também, um organismo vivo e profundamente frágil. Pensar que o manto que protege a vida na Terra, a atmosfera, é fino como a casca de uma maçã e que, sem ele, não poderíamos sobreviver. De longe, os astronautas veem o impacto negativo da nossa presença. E temem pelo futuro do planeta e da nossa espécie. A Terra, vista como um todo, é o símbolo da nossa era. E a necessidade imperativa de sua preservação deveria ser o nosso mantra .:


Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".


OVERVIEW from Planetary Collective on Vimeo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O que mostra o filme?:.por - ROBERTO DaMATTA


Dizem que quando morremos vemos um filme de nossas vidas. Um resumo preciso e inexorável de tudo o que fizemos de bom e de lastimoso surge numa tela, revelando as coisas inconfessáveis que escondemos dos outros e de nós mesmos. Imaginar que o rito de passagem para o outro mundo, que a última peça do nosso "trânsito em julgado" consiste em assistir à  nossa vida como uma "fita de cinema" é, no mínimo, deslumbrante. Se tudo é concluído com um filme, estamos todos sujeitos, também no além, a interpretações. Se a vida é um filme, nenhuma vida pode se reduzir a uma verdade única, pois todas são  dotadas de abundantes pontos de vista. A hipótese é interessante porque o cinema se abre a muitas verdades e eu estou seguro de que a nossa maior tarefa nesta vida é a responsabilidade de interpretar o que - nesta fantasia - continua depois da morte. A vida, como a fita, asseguram e reiteram que somos seres em busca de interpretações responsáveis. Na cosmologia Católica Romana, mas não na luterana e na calvinista, podemos seguir para três e não dois, e apenas dois,lugares: céu ou inferno. O purgatório, que relaciona mortos e vivos, figura como um ponto intermediário, ao lado do limbo - esse não lugar inventado séculos antes da antropologia de Marc Augé. Uma paragem cujos oradores não têm filme! De qualquer modo, a peça final desse "trânsito em julgado" é um grandioso ato interpretativo no qual os nossos advogados de  defesa e intérpretes (chamados trivialmente de anjos da guarda e santos da nossa devoção) estarão a postos para arguir a nosso favor junto ao filme revelado. Num inquérito antigo, a maioria estava convencida de que ia para o purgatório. O culto das almas do purgatório tem muitos devotos. Há quem se esqueça que você está queimando; mas há quem se lembre de você e, interpretando sua vida positivamente, reza por sua alma, poupando-lhe alguns milhares ou milhões de anos de fogueira. No nosso catolicismo ibérico e relacional, o purgatório é a terra das interpretações, o paraíso da crítica, o lugar  privilegiado dos tribunais e um grandioso festival de cinema. Por isso eu digo que o mais importante nesta vida não é  acumular dinheiro e poder, mas atuar em histórias que possam render um Oscar. Todo filme revela coisas insuspeitas. Você pensava que o pecado era leve, mas o filme revela detalhes de uma má-fé  surpreendente. O gesto, a voz e as mãos mostram, na fita, a sua maldade esquecida. Exprimem e denunciam intenções que fazem  parte do inconsciente do inconsciente. Sim, porque neste plano, o querer faz parte de um desejo e o desejo faz parte de uma  intenção e a intenção - que é parte de sua circunstância de vida - revela-se truncada pela mendacidade. Essa mendacidade que recusa o bom senso sem o qual não se vive debaixo da lei. No filme final vemos tudo. Na vida terrena, esse mundo que inventa o cronista e a arte em geral, cada qual enxerga um  pedaço. Sem a liberdade de todas as vozes, não se chega aos fatos, contados sempre de um só lado e por isso tidos como ficção. O problema, porém, é que os santos, os poetas e os filósofos descobrem contradições nos mandamentos. A igualdade pode ser incompatível com a liberdade do mesmo modo que o egoísmo, sem o qual não há autoestima, pode ser o fim do altruísmo e da caridade. Há casos de suicídio por amor e de santificação por meio do adultério. Que falem alguns livros do grande Graham Green. As múltiplas interpretações inventam críticos, hermeneutas, juízes e tribunais que, não obstante, podem também errar, mas a quem atribuímos, como os árbitros de futebol, uma decisão - sem trocadilho - relativamente arbitrária. Pois quem merece mesmo ir para o inferno, exceto uns poucos f.d.p? E o que é o destino senão um conjunto de erros com pessoas certas e de acertos com gente errada? Se o homem se faz a si mesmo como ainda supomos - e se a neurociência deixar -, alguma instituição tem que cortar o nó. E essa instituição não pode ser um ator interessado em escamotear papéis. Caso isso ocorra, o palco desaba!
Termino com uma nota simples, clara e feliz. Quero externar minha alegria por ter de volta o Luis Fernando Verissimo, que quase viu esse filme.:

ROBERTO DaMATTA publicado originalmente em O Estado de S.Paulo - 09/01

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Turing o pai do computador :. por Elio Gaspari


Alan Turing

Father of computer science, mathematician, logician, wartime codebreaker, victim of prejudice.:


 "Diz a lenda que a maçã mordida teria inspirado a marca da Apple. É apenas lenda:."


A editora da Universidade de Oxford acaba de publicar “Turing: Pioneer of the Information Age” (“Turing: O Pioneiro da Era da Informação”). É um bom livro, contando a história de um gênio que viveu num mundo emocionante e morreu num enredo de romance policial em 1954, aos 41 anos. Está na rede, em inglês, por R$ 23,63.Em 1936, Alan Turing concebeu aquilo que chamou de “máquina universal”. Era a ideia do computador, inicialmente chamado de “cérebro eletrônico”. Matemático genial, se não tivesse feito mais nada seria celebrado como um dos pais da vida moderna.Com o início da guerra, incorporou-se à tropa de ingleses que se dedicava a quebrar os códigos alemães. Era uma comunidade que trabalhava em segredo, na qual se juntavam físicos, engenheiros, malucos, militares e campeões de xadrez. Seus dois mil servidores não puderam contar o que faziam nem para a família. Nos anos 70, quando o véu foi levantado, algumas mulheres queixaram-se por não terem revelado o segredo aos maridos, que haviam morrido. Turing foi decisivo para desvendar o código dos submarinos alemães que afundavam os comboios ingleses. Decifravam 84 mil mensagens a cada mês, influíram no resultado da batalha de El Alamein e na de Kursk, ajudando os russos. Suspeita-se que Turing tenha colaborado na quebra dos códigos japoneses antes da batalha de Midway. Alguns historiadores estimam que esse trabalho encurtou a duração da Segunda Guerra em até dois anos. Exagero, a guerra terminaria em agosto de 1945, com uma bomba atômica caindo em Berlim. Nesse mundo excêntrico, Turing conseguia ser esquisito. Com o tempo, atribuíram-lhe também a concepção do Colossus, o avô do computador que grampeava até as comunicações de ADOLPH9HITLER9FUEHRER (o “9” significava espaço na mensagem decifrada) e ajudou o sucesso do Dia D. Para administradores, uma aula: quando faltaram recursos, um deles levou uma carta a Churchill. Não podia dizer aos secretários dele o que fazia nem o que queria. A carta chegou a Sir Winston e ele escreveu: “Ação. Para hoje”. Jack Copeland, o autor do livro, é de longe o pesquisador que melhor estudou o trabalho dos criptógrafos ingleses e a vida de Turing. O Colossus não foi coisa dele e suas excentricidades acabaram abafando o gênio. Vestia-se mal, não falava, raramente ouvia e corria 30 quilômetros. Era tudo isso e mais homossexual, numa época que criminalizava essa preferência. Turing teve uma namorada, caso rápido. O livro tem longos trechos onde Copeland explica as ideias e o trabalho do gênio. Dão trabalho, mas, com paciência, podem se tornar aulas fascinantes. O fim da história é mais ou menos conhecido. Sua casa foi assaltada, ele foi à polícia e deu queixa. Como não mentia, contou que dormira com um rapaz. Foi processado por indecência. A Justiça mandou que escolhesse: cadeia ou tratamento hormonal castrativo. Dois anos depois, Turing foi encontrado morto em sua cama. Ao lado, tinha uma maçã na qual teria injetado cianeto. Nessa época, estudava o crescimento dos tecidos vivos. Ele jamais falou da quebra dos códigos. Diz a lenda que a maçã mordida teria inspirado a marca da Apple. É apenas lenda. Com bons argumentos, Copeland vai além: não se pode afirmar que Turing matou-se. A maçã nunca foi examinada e ele fazia experiências em casa com cianeto. (Outro biógrafo sustenta que ele disfarçou o suicídio deliberadamente.)Turing tornou-se um ícone da comunidade gay mundial. Em 2009, o primeiro-ministro Gordon Brown desculpou-se pelo sofrimento que lhe foi imposto e o companheiro Obama saudou-o como um dos grandes gênios do século XX. Atualmente, corre na Inglaterra uma campanha para que o governo apague a condenação que lhe foi imposta. Nela está o físico Stephen Hawking.:

www.triciclopompeo.com.br

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O Projeto FIEL (Forma Inteligente e Ecológica de Locomoção) surgiu da idéia de incorporar as vantagens de uma motocicleta, como: facilidade de manutenção, baixo consumo e agilidade, com as vantagens de um carro: conforto, segurança e espaço, em um veículo apenas.