"O caminho do inferno é pavimentado por todas as boas intenções que os humanos enunciaram ao longo do tempo, mas que nunca levaram à prática. Estamos no inferno da indolência que ainda por cima se reveste de empáfia. Porém, isso nos conduz também ao momento em que teremos de renunciar ao julgamento e condenação de nossos semelhantes, independente da profundidade e vileza de seus crimes, pois todo nosso reino humano, sem distinção, é ativamente culpado, por omissão ou por intenção, de ter conduzido o mundo ao estado em que se encontra atualmente. Não é mais o caso de julgamento ou condenação, agora teremos de praticar algo extremamente difícil, a redenção, o duro trabalho de recuperação de um mundo podre e decadente através do amor, do perdão e do estreitamento de vínculos de cooperação..." Nota introdutória, por Oscar Quiroga***
A reencarnação da guerra de Judeus contra árabes – Árabes contra judeus.
Palestina. Há um famoso dito do Senhor Buda - “ódio não é detido com ódio; ódio somente termina com amor. Esta é a Lei Eterna”.Se a este grande princípio agregamos o fato de que há Karma, a Lei do Ajuste, e que onde houver ajuste que não se completa num ciclo existencial tal ajuste é carregado a outro, então poderemos ter uma visão do lado oculto dos horríveis eventos que acontecem na Palestina, na luta entre Judeus e árabes, ou se preferir, entre Árabes e judeus. No tempo do nascimento do Profeta, Meca já era o centro sagrado de toda Arábia, já que na cidade está a Kaaba, o principal objeto de veneração, “a pedra que caiu do céu”, um grande meteorito que Burton examinou de perto quando fez a peregrinação se fazendo passar por árabe em 1853. Este lugar sagrado onde se encontra a pedra foi sacramentado por Abraham e Isaac. Ao redor da pedra havia 360 ídolos, também o grande deus Hobal e duas gazelas de ouro e prata. Além disso havia duas imagens, de Abraham e Isaac. Num dos meses do ano acontecia uma grande feira na Meca onde bens eram comercializados, na ocasião também havia intensa adoração religiosa aos ídolos. Pela tradição, durante esta época todas as lutas entre as tribos árabes eram suspensas enquanto durar a peregrinação. É à medida que lemos o Koran que encontramos como, pelo tempo em que o Profeta Muhammad da Arábia nasceu em 570 AD, ambos os árabes e judeus possuíam tradições em comum por compartilharem a mesma linhagem ancestral. Todos os principais personagens do Antigo Testamento são encontrados no Koran também. Moisés é mencionado inúmeras vezes, Abraham também, que é tido como o ancestral em comum entre árabes e judeus. Também são mencionados Adão, Ismael, Noé, Jacô, José, Isaac, Aaron, a Arca da Aliança, David, Golias, Samuel, Saul e inúmeras referências a Jesus, que é sempre chamado de Filho de Maria, já que para os muçulmanos é blasfêmia imaginar que Deus poderia ter um filho. A história de Moisés batendo na rocha de onde surgem doze nascentes de água, também é mencionada, e como destas doze nascentes separadas bebem as doze tribos de Israel.Provavelmente há poucas pessoas que compreendem que Árabes e Judeus não apenas provêm de uma mesma linhagem semita, mas também estão proximamente vinculados por tradições culturais, como estariam verdadeiros primos. O capítulo mais fascinante da antiga relação destes dois povos está no Sagrado Koran do Profeta Muhammad da Arábia. Dentre as muitas traduções do Koran a melhor com que me deparei é aquela feita por A. Yussuf Ali em dois volumes. É proibitivamente cara, na Índia custa 32 rúpias. Ainda assim é uma bela tradução com o texto em árabe numa metade da página, à esquerda, e a tradução inglesa línea por línea à direita. O Sr. Yusuf Ali agrega um grande número de notas muito interessantes, resultado de seus muitos estudos sobre as religiões e inúmeras viagens.O Profeta nasceu em Meca e sua família era da linhagem de custódios da Kaaba. Quando o Profeta recebeu a revelação do Anjo Gabriel instando-o a afirmar que “não há deus, mas O Deus”, os árabes adoradores de ídolos ressentiram sua interferência nas práticas idólatras e começaram a persegui-lo. Não se atreveram a matá-lo abertamente porque seu tio era o chefe a cargo da Kaaba. Histórias chocantes e dramáticas são contadas a respeito das dificuldades do Profeta depois de três anos de ministério, com somente 30 que aceitaram a revelação. Além dos poucos de sua própria família e certos viajantes de Medina, a cidade que fica ao norte de Meca, ninguém mais aceitou a revelação. Aqueles de Medina, chamados depois de Ansars, os Defensores, invitaram o Profeta a ir à Medina e ele aceitou o convite.Séculos antes do nascimento do Profeta os Árabes viviam em Bactria e os Judeus na Mesopotamia. Eles tinham sido conduzidos para dentro da Arábia pelo expansionismo da Caldéia e Babilônia. Dentre os que foram forçados a fugir do avanço dos invasores também havia certas tribos cristãs que se instalaram na Arábia. Todos falavam uma língua em comum, ou pelo menos dialetos que podiam ser facilmente compreendidos entre si. As tribos judaicas assentaram-se na região próxima a Medina. Próximo a Medina tinham se assentado muitas tribos de judeus, dentre as quais estavam Beni-um-Nazir, Beni-Kuraisha, Beni-Kainu-Kaa. Havia também tribos cristãs, Harith, Hanifa e Tay. Como tanto judeus quanto árabes reverenciavam os profetas antigos, e como naquele tempo todos se voltavam à Jerusalem no momento das orações, encontramos no Koran o apelo do Anjo aos judeus, insistindo que o Profeta Muhammad estava diretamente na línea dos profetas, de Abraham, Moisés e Jesus, e que ele não estava particularmente revelando nada extraordinariamente novo. Diz o Koran: "Demos o livro a Moisés E o seguimento Com a sucessão de Apóstolos; Demos Jesus o Filho de Maria Com sinais claros e fortalecido Com o Espírito Santo. Será que Sempre que vir a vocês Um Apóstolo que Vocês não desejam, Vocês vão se encher de soberba? A uns vocês chamam de impostores A outros vocês aniquilam!" Aqui começa a parte da história onde se narra que os tratados foram quebrados e árabes atacaram judeus e judeus atacaram árabes. Violações de pactos, assaltos, pilhagens das duas partes, tudo isso são fatos do período; hoje em dia não se consegue uma visão objetiva do que verdadeiramente tenha acontecido e, por isso, não se sabe mais quem está certo. Evidente que os historiadores árabes proclamam que foram os judeus que violaram o pacto e conspiraram com os inimigos do Profeta; enquanto que os historiadores judeus afirmam exatamente o contrário, culpam o Profeta e seus seguidores pela luta. Uma coisa é certa, incrível violência aconteceu e no fim os Judeus foram derrotados. Em primeira instância, enquanto se rendiam, era permitido que os judeus partissem com esposa e filhos, mas sem levar nenhum bem material ou propriedade com eles, o que, de acordo com a lei dos conquistadores era dividido entre os vitoriosos seguidores do Profeta. Porém, numa outra instância, depois que os judeus se renderam após longa e obstinada resistência, foram todos massacrados, incluindo as mulheres e crianças. Uma parte das acusações contra os judeus era que muitos deles, mulheres e homens, eram excelentes poetas e que escreviam poemas indecentes acerca do Profeta, que circulavam entre as tribos de seus inimigos.O Profeta considerava os judeus “o povo do Livro”, e como os judeus eram monoteístas e tinham o mandamento de Deus para não fazer imagens esculpidas, o Profeta considerava o judaísmo como uma variante de sua revelação, mais tarde chamada Islam. Os muhammadianos tinham por eles que o verdadeiro ensinamento de Cristo era também puro monoteísmo e que Jesus nunca se proclamou Filho de Deus e que foram os sacerdotes exploradores os que introduziram a sagrada trindade. Tão grande era a reverência prestada a Jesus, que as tradições do Islam sustentam que tão sagrado profeta nunca poderia ter sido morto pelos judeus, aceitam apenas que foi perseguido e maltratado. A pessoa morta pelos judeus não era o verdadeiro Jesus, mas só uma aparição, já que seria grande blasfêmia imaginar que tão grande profeta pudesse ser morto por agentes humanos.Em Medina, muitas tribos árabes eram hostis ao Profeta e sua Mensagem, o consideravam um revolucionário que tentava erradicar sua antiga adoração a muitos ídolos. Porém, o Profeta reuniu mais e mais seguidores, tanto entre os Defensores de Medina quanto dentre aqueles que tinham se juntado a ele em Meca. Várias tribos judaicas e árabes fizeram um pacto de amizade com o Profeta e seus seguidores; o pacto regulava relações mercantis e declarava particular tolerância entre os diferentes modos de adoração de cada tribo.Assim, 1200 anos atrás havia ódio amargo e apesar de que os judeus foram dispersos da Arábia, o ódio não chegou ao fim. Os seguidores do Profeta se difundiram de país a país, ocidentalmente ao Egito e Espanha e orientalmente à Persia, Turquistão e Índia. A terrível conta de ódio entre árabes e judeus não estava fechada. E hoje em dia somos testemunhas da reencarnação desta antiga tragédia.
A reencarnação da Guerra – Romanos contra Judeus.
Não demorou muito e foi natural que os judeus se rebelassem contra o domínio romano. Depois das procuradorias de Poncio Pilatos, Félix e Festus, o problema foi concluído e o grande general romano Pompeu em pessoa conduziu as legiões romanas e Jerusalem foi capturada. Um incidente interessante é que, como os judeus não lutariam no dia do Sabbath, apesar de que poderiam defender-se se atacados, Pompeu, cujas legiões estavam fora da cidade além dos enormes fossos entre eles e os muros da cidade, ordenou seus soldados que trabalhassem enchendo os fossos no dia de Sabbath, mas sem combater os judeus.Enquanto Roma se expandia e conquistava país após país, foi uma questão de tempo que toda a Palestina e tudo que ficava além dela se tornasse um Protetorado de Roma. Os reis dos judeus eram confirmados em seus reinados, mas sujeitos à supervisão de Roma, que enviava um “Procurador”, um que sustentava um cargo semelhante ao de “Governador Geral” da Índia pelos ingleses. A história do relacionamento entre romanos e judeus é relatada no grande livro de Josephus, um judeu e sacerdote, também em certo período apontado como general pelos judeus. Uma incrível parte da história que ele narra é a da divisão entre os próprios judeus, cada grupo tramando contra os outros e tentando ganhar os favores dos romanos. As brutalidades de uns grupos contra os outros, como Josephus as expõe, relembram aquela de como Samuel, o escolhido de Deus, “corta Agag em pedaços perante Deus em Gilgal.” (I.Sam. 15.33)A situação entre romanos e judeus se desenvolveu alternando períodos de submissão e periódicas rebeliões dos judeus. A tragédia culminou sob Titus, mas antes da tragédia, Josephus menciona uma razão que explica o porquê de os romanos, nunca pessoas gentis, comportavam-se com especial brutalidade com os judeus.Assim, enquanto a cidade era tomada e a luta acontecia dentro do Templo, os sacerdotes que tinham de fazer as cerimônias continuaram sua adoração a Deus a despeito do tumulto ao redor deles. Pompeu, como um turista moderno, ingressou no Santuário do Templo onde, de acordo com a Lei judaica, ninguém além dos altos sacerdotes poderia entrar. Esta contaminação infligiu aos judeus profundo pesar. Josephus narra que apesar de haver muito dinheiro no Santuário, Pompeu não tocou em nada do que havia no Santuário e que no dia seguinte comandou aos sacerdotes que limpassem o Templo e que fizessem seus costumeiros sacrifícios. Isto ocorreu em 65 AC.“e naquela época havia um grupo que especialmente instigava as pessoas para a guerra, que fez um assalto a certa fortaleza de nome Massada. Tomaram-na pela traição e massacraram os romanos que lá estavam, colocando outros do mesmo partido a tomar conta. Ao mesmo tempo Eliazar, filho de Ananias o sumo sacerdote, um jovem muito ousado que então era governador do Templo, persuadiu aqueles que oficiavam os rituais a não receber nem presente nem sacrifício de qualquer forasteiro. Este foi o verdadeiro início de nossa guerra com os Romanos; porque sobre esse comando rejeitaram o sacrifício de César. Os sumos sacerdotes e os homens principais imploraram para não omitir os sacrifícios que era costumeiro oferecer, mas não prevaleceram.” A Cidade foi rodeada com três muros, os quais eram defendidos com grande heroísmo pelos judeus, mas finalmente os Romanos capturaram a cidade sagrada em 70 AD. Rebeliões de Judeus que tramavam ciladas contra os romanos se alastraram ao longo dos anos. Em 135 AD chegou o fim e a nenhum judeu foi permitido viver na Cidade Jerusalem. Suponha você que se possa provar que os Romanos reencarnaram como britânicos (e penso Eu não ser tão difícil provar a tese), veriamos logo uma razão por que os britânicos foram arrastados para dentro do assunto da Palestina. O Karma horrível entre romanos e judeus, particularmente devido ao senso romano de dominação e com este a insensibilidade com que tratavam seus oponentes, criou-se um Karma que não terminou. O Karma reencarna no momento em que a Inglaterra assume perante a Liga das Nações o papel de Mandatária sobre Palestina. As tentativas de a Inglaterra ser justa tanto com judeus e árabes e o fracasso dessas é a história de hoje em dia. De que outro jeito se explicaria o fato de os judeus literalmente massacrarem 500 britânicos e ainda a Inglaterra gastar cem milhões de libras para envolver-se numa tarefa ingrata? Talvez apenas porque as velhas dívidas precisavam ser pagas com “sangue, suor e lágrimas”. Nós só podemos ansiar que o Karma tenha acabado quando a Inglaterra saiu da Palestina no 15 de maio passado, depois de ter dado seu melhor para trazer paz entre árabes e judeus para que vivam juntos com mínima medida de tolerância.Hoje em dia é difícil encontrar algum judeu que seja puro semita. Mesmo nos anos iniciais não-judeus podiam tornar-se judeus, as mulheres ao se casar com um judeu e aos homens por aceitar o rito da circuncisão. Hoje há judeus poloneses, russos, ingleses, americanos, indianos e inclusive chineses. Por isso racialmente não há tal raça como a raça judia, há as tradições religiosas judias em quase todas as partes do mundo, onde quer que estes semi judeus se encontrem.Agora que a Inglaterra terminou seu Karma parece como se o problema do antigo Karma de ódio entre árabes e judeus tivesse sido transferido às 58 nações das Nações Unidas. O Karma transformou-se agora em Karma Mundial e todas as nações e seus povos são responsáveis daqui em diante pela solução deste antigo problema.
C. Jinarajadasa 27 de maio, 1948 Madras - India
****Este artigo foi publicado na revista “The Theosophist” em 27/5/1948 por C. Jinarajadasa, o então Editor dessa, na cidade de Madras, Índia. Traduzido por Oscar Quiroga publicado no site astrologiareal.com.br