sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Rio de Janeiro continua sendo :. Ruy Castro - O sonho real



RIO DE JANEIRO - Tomei meu pai pelo braço e levei-o a ver o Rio de seu tempo sendo restaurado, remodelado, retrofitado. Era um passeio a pé, como muitos que fez comigo quando eu era criança e ele, um homem de terno e responsabilidades. A diferença é que, agora, em 2012, era eu que o conduzia, mostrando-lhe as novidades -prédios, quarteirões, ruas e bairros inteiros sendo trazidos de volta a um esplendor que ele conheceu.

E não são apenas projetos, como já se fizeram muitos e ficaram no papel. São para valer -as obras são palpáveis, estão à vista e algumas, já infernizando o trânsito. O Rio dos imperadores, escravos, meirinhos, cocotes e capadócios, de Maneco de Almeida a Machado de Assis, se encontra com o dos presidentes, estivadores, cronistas, manequins e sambistas, de João do Rio a Marques Rebelo, e ambos chegarão até nós, que só os conhecemos sob o desprezo de governos sem compromisso com a cidade.

Abandonado há décadas, o centro histórico e profundo está sendo passado a limpo. Cabeças-de-porco à beira do desabamento renascem para se tornar estúdios, hostels, museus, ou para receber empresas cujas especialidades seriam incompreensíveis para seus moradores originais. Orgulhoso, levo meu pai pelo Catete, Glória, Lapa, Santo Cristo, Gamboa e outros bairros que foram seus territórios nos anos 30 e 40 e em que brincou tantos Carnavais.

Ele morreu em 1983, aos 73 anos. O passeio acima aconteceu num sonho que tive nesta semana. Por fim, chegamos à praça Tiradentes na hora do lusco-fusco, com os lampadários acesos, a vida piscando e um aroma de euforia. A multidão o impressionou, mas o lufa-lufa era fascinante. Um bonde passou apinhado, todo iluminado por dentro. Foi tão mágico que o sonho acabou ali.


O bonde e meu pai continuarão no sonho. Mas este novo velho Rio é real.:.





*folha de SP 28-09-*** - O sonho real, Ruy Castro

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Cinquenta tons de cinza:. A Arte de nosso tempo!




Uma leitura possível da história das artes visuais de que resultaram as manifestações contemporâneas identificará a invenção da fotografia como um fator decisivo desse processo.
A crítica, de modo geral, há muito associa ao surgimento da fotografia a mudança da linguagem pictórica, de que resultou o movimento impressionista. 
É uma observação pertinente, desde que se tenha o cuidado de não simplificar as coisas, ou seja, não desconhecer a existência de outros fatores que também influíram nessa mudança. Um desses fatores foi a descoberta da cor como resultante da vibração da luz sobre a superfície das coisas. 
Noutras palavras, o surgimento do impressionismo que constituiu uma ruptura radical com a concepção pictórica da época estava latente na pintura de alguns artistas de então, como, por exemplo, Eugène Delacroix e Édouard Manet, que já anunciavam a superação de certos valores estéticos em vigor. Não resta dúvida, no entanto, que a invenção da fotografia, por tornar possível a fixação da imagem real com total fidelidade, impunha o abandono do propósito de conceber a pintura como imitação da realidade. 
Se tal fato não determinou, por si só, a revolução impressionista, sem dúvida alguma libertou a pintura da tendência a copiar as formas do mundo real e, assim, deixou o pintor livre para inventar o que pintava. 
Pretendo dizer com isso que, se a cópia da realidade, pela pintura, se tornara sem propósito, isso não implicaria automaticamente em pintar como o fez Monet, ao realizar a tela "Impression, Soleil Levant", que deu origem ao impressionismo. Poderia ter seguido outro rumo.
Mas, se o que nasceu naquelas circunstâncias foi a pintura impressionista, houve razões para que isso ocorresse. E essas razões, tanto estavam implícitas na potencialidade da linguagem pictórica daquele momento, como no talento de Monet, na sua personalidade criadora. É que assim são as coisas, na vida como na arte: fruto das probabilidades que se tornam ou não necessárias. 
A verdade, porém, é que, se não houvesse surgido uma maneira de captar as imagens do real de modo fiel e mecânico, o futuro da pintura (e das artes visuais em geral) teria sido outro. A pintura, então, livre da imitação da natureza, ganha autonomia: o pintor então podia usar de seus recursos expressivos para inventar o quadro conforme o desejasse e pudesse. 
Como consequência disso, não muito depois, nasceram as vanguardas artísticas do século 20: o cubismo, o futurismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo todos eles descomprometidos com a imitação da realidade. 
Mas essa desvinculação com o mundo objetivo terá consequências: a liberdade sem limites levará, de uma maneira ou de outra, à desintegração da linguagem artística, particularmente a da pintura. 
Os dadaístas chegam a realizar quadros mais determinados pelo acaso do que por alguma qualquer intenção deliberada do autor. E se a arte podia ser fruto de tamanha gratuidade, não teria mais sentido pintar nem esculpir. O urinol de Marcel Duchamp é resultado disso. Por essa razão, ele afirmou: "Será arte tudo o que eu disser que é arte". Ou seja, tudo é arte. Ou seja, nada é arte. 
Por outro lado, a fotografia, que nasceu como retrato do real, foi se afastando dessa condição e, como a pintura, passou também a inventá-lo. Por outro lado, ela ganhou movimento e se transformou em cinema, que tem como principal conquista a criação de uma linguagem própria, totalmente distinta da de todas as outras artes. 
Cabe aqui uma observação: a pintura não apenas fazia o retrato das pessoas, como também mostrava cenas da vida, como as ceias, os encontros na alcova, as batalhas, os idílios etc. Quanto a isso, mais que a fotografia, o cinema criou, com sua linguagem narrativa, um mundo ficcional, que nenhuma outra arte e tampouco a pintura é capaz de nos oferecer. 
A meu ver, a fotografica embriao do cinema, superando as artes matematicas, é a grande arte tecnológica, que criou uma linguagem própria condição essencial para que algo seja considerado arte--, geradora de um universo imaginário inconfundível, de possibilidades inesgotáveis, sofisticado e ao mesmo tempo popular. O cinema é, sem dúvida, a arte de nosso tempo:.

domingo, 23 de setembro de 2012

Marcelo Gleiser - Além da fronteira do Cosmos :..



Onde termina o Universo? A resposta depende de muitos fatores. Quando os cosmólogos afirmam que o Universo está em expansão, as pessoas imaginam uma espécie de explosão a partir de um ponto central, feito uma bomba. As galáxias que se afastam são como os detritos da bomba, voando pelo espaço.
Embora seja intuitiva, essa imagem está errada. A expansão do Universo é uma expansão do próprio espaço, o qual, após a teoria da relatividade geral de Einstein, ganhou plasticidade: ele pode se expandir, contrair-se ou se dobrar como um balão de borracha.
As galáxias -que, feito ilhas num oceano, são os marcos cósmicos de distância- são carregadas pela expansão do espaço. Se elas têm um movimento adicional, por exemplo, quando duas próximas se atraem gravitacionalmente, ele é superposto ao seu afastamento inexorável, causado pela expansão do espaço. Uma das consequências imediatas dessa expansão é que o Universo não tem um centro.
Imagine que você, da sua galáxia, observa outras à sua volta. Com a expansão do espaço, todas estão se afastando. A conclusão seria que a sua galáxia deve ser o centro de tudo -mas não é. Um observador numa outra galáxia vê todas as galáxias, inclusive a nossa, afastando-se dele. O mesmo com todas as galáxias. No Universo, todos os pontos são igualmente importantes.
Mas, se isso é verdade, como explicar a contração do espaço perto do Big Bang? Se o Universo agora está em expansão, no passado as distâncias eram menores. Astrônomos podem medir as velocidades de afastamento das galáxias e, passando o filme ao contrário, projetar quando elas estariam amontoadas em um volume mínimo.
Esse momento marca o início da nossa história cósmica, quando tudo começou -cerca de 13,7 bilhões de anos atrás, aproximadamente o triplo da idade da Terra.
Quando juntamos a história cósmica com a velocidade da luz, chegamos ao conceito de horizonte cósmico. Como a velocidade da luz define a da informação que recebemos, num Universo com idade finita só podemos receber informação de objetos situados até a distância que a luz percorreu nesse tempo. Feito a linha do horizonte, que marca quão longe enxergamos da praia
Mas o mar não termina no horizonte. E o Universo? Também não. Se o Universo não estivesse em expansão, a distância até o horizonte seria de 13,7 bilhões de anos-luz. Como o espaço estica com o tempo, ondas de luz pegam uma carona e podemos ver mais longe: o horizonte cósmico fica a cerca de 46 bilhões de anos-luz de distância.
Para além desse horizonte, podemos apenas especular. Pode ser que o Universo seja espacialmente infinito com uma geometria plana (feito o topo de uma mesa, mas em três dimensões) ou aberta (feito o topo de uma sela de cavalo, mas em três dimensões, difícil de visualizar).
O Universo também pode ser fechado, feito a superfície de um balão (mas em três dimensões), ou ter uma forma ainda mais estranha.A existência do horizonte sugere uma limitação séria: somos parcialmente cegos no que tange à estrutura cósmica. Além do horizonte pode até haver um multiverso. Mas nos certificar disso parece, ao menos por ora, muito difícil, se não impossível.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".

www.triciclopompeo.com.br

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O Projeto FIEL (Forma Inteligente e Ecológica de Locomoção) surgiu da idéia de incorporar as vantagens de uma motocicleta, como: facilidade de manutenção, baixo consumo e agilidade, com as vantagens de um carro: conforto, segurança e espaço, em um veículo apenas.