quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
O que mostra o filme?:.por - ROBERTO DaMATTA
Dizem que quando morremos vemos um filme de nossas vidas. Um resumo preciso e inexorável de tudo o que fizemos de bom e de lastimoso surge numa tela, revelando as coisas inconfessáveis que escondemos dos outros e de nós mesmos. Imaginar que o rito de passagem para o outro mundo, que a última peça do nosso "trânsito em julgado" consiste em assistir à nossa vida como uma "fita de cinema" é, no mínimo, deslumbrante. Se tudo é concluído com um filme, estamos todos sujeitos, também no além, a interpretações. Se a vida é um filme, nenhuma vida pode se reduzir a uma verdade única, pois todas são dotadas de abundantes pontos de vista. A hipótese é interessante porque o cinema se abre a muitas verdades e eu estou seguro de que a nossa maior tarefa nesta vida é a responsabilidade de interpretar o que - nesta fantasia - continua depois da morte. A vida, como a fita, asseguram e reiteram que somos seres em busca de interpretações responsáveis. Na cosmologia Católica Romana, mas não na luterana e na calvinista, podemos seguir para três e não dois, e apenas dois,lugares: céu ou inferno. O purgatório, que relaciona mortos e vivos, figura como um ponto intermediário, ao lado do limbo - esse não lugar inventado séculos antes da antropologia de Marc Augé. Uma paragem cujos oradores não têm filme! De qualquer modo, a peça final desse "trânsito em julgado" é um grandioso ato interpretativo no qual os nossos advogados de defesa e intérpretes (chamados trivialmente de anjos da guarda e santos da nossa devoção) estarão a postos para arguir a nosso favor junto ao filme revelado. Num inquérito antigo, a maioria estava convencida de que ia para o purgatório. O culto das almas do purgatório tem muitos devotos. Há quem se esqueça que você está queimando; mas há quem se lembre de você e, interpretando sua vida positivamente, reza por sua alma, poupando-lhe alguns milhares ou milhões de anos de fogueira. No nosso catolicismo ibérico e relacional, o purgatório é a terra das interpretações, o paraíso da crítica, o lugar privilegiado dos tribunais e um grandioso festival de cinema. Por isso eu digo que o mais importante nesta vida não é acumular dinheiro e poder, mas atuar em histórias que possam render um Oscar. Todo filme revela coisas insuspeitas. Você pensava que o pecado era leve, mas o filme revela detalhes de uma má-fé surpreendente. O gesto, a voz e as mãos mostram, na fita, a sua maldade esquecida. Exprimem e denunciam intenções que fazem parte do inconsciente do inconsciente. Sim, porque neste plano, o querer faz parte de um desejo e o desejo faz parte de uma intenção e a intenção - que é parte de sua circunstância de vida - revela-se truncada pela mendacidade. Essa mendacidade que recusa o bom senso sem o qual não se vive debaixo da lei. No filme final vemos tudo. Na vida terrena, esse mundo que inventa o cronista e a arte em geral, cada qual enxerga um pedaço. Sem a liberdade de todas as vozes, não se chega aos fatos, contados sempre de um só lado e por isso tidos como ficção. O problema, porém, é que os santos, os poetas e os filósofos descobrem contradições nos mandamentos. A igualdade pode ser incompatível com a liberdade do mesmo modo que o egoísmo, sem o qual não há autoestima, pode ser o fim do altruísmo e da caridade. Há casos de suicídio por amor e de santificação por meio do adultério. Que falem alguns livros do grande Graham Green. As múltiplas interpretações inventam críticos, hermeneutas, juízes e tribunais que, não obstante, podem também errar, mas a quem atribuímos, como os árbitros de futebol, uma decisão - sem trocadilho - relativamente arbitrária. Pois quem merece mesmo ir para o inferno, exceto uns poucos f.d.p? E o que é o destino senão um conjunto de erros com pessoas certas e de acertos com gente errada? Se o homem se faz a si mesmo como ainda supomos - e se a neurociência deixar -, alguma instituição tem que cortar o nó. E essa instituição não pode ser um ator interessado em escamotear papéis. Caso isso ocorra, o palco desaba!
Termino com uma nota simples, clara e feliz. Quero externar minha alegria por ter de volta o Luis Fernando Verissimo, que quase viu esse filme.:
ROBERTO DaMATTA publicado originalmente em O Estado de S.Paulo - 09/01
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Turing o pai do computador :. por Elio Gaspari
Alan Turing
Father of computer science, mathematician, logician, wartime codebreaker, victim of prejudice.:
"Diz a lenda que a maçã mordida teria inspirado a marca da Apple. É apenas lenda:."
A editora da Universidade de Oxford acaba de publicar “Turing: Pioneer of the Information Age” (“Turing: O Pioneiro da Era da Informação”). É um bom livro, contando a história de um gênio que viveu num mundo emocionante e morreu num enredo de romance policial em 1954, aos 41 anos. Está na rede, em inglês, por R$ 23,63.Em 1936, Alan Turing concebeu aquilo que chamou de “máquina universal”. Era a ideia do computador, inicialmente chamado de “cérebro eletrônico”. Matemático genial, se não tivesse feito mais nada seria celebrado como um dos pais da vida moderna.Com o início da guerra, incorporou-se à tropa de ingleses que se dedicava a quebrar os códigos alemães. Era uma comunidade que trabalhava em segredo, na qual se juntavam físicos, engenheiros, malucos, militares e campeões de xadrez. Seus dois mil servidores não puderam contar o que faziam nem para a família. Nos anos 70, quando o véu foi levantado, algumas mulheres queixaram-se por não terem revelado o segredo aos maridos, que haviam morrido. Turing foi decisivo para desvendar o código dos submarinos alemães que afundavam os comboios ingleses. Decifravam 84 mil mensagens a cada mês, influíram no resultado da batalha de El Alamein e na de Kursk, ajudando os russos. Suspeita-se que Turing tenha colaborado na quebra dos códigos japoneses antes da batalha de Midway. Alguns historiadores estimam que esse trabalho encurtou a duração da Segunda Guerra em até dois anos. Exagero, a guerra terminaria em agosto de 1945, com uma bomba atômica caindo em Berlim. Nesse mundo excêntrico, Turing conseguia ser esquisito. Com o tempo, atribuíram-lhe também a concepção do Colossus, o avô do computador que grampeava até as comunicações de ADOLPH9HITLER9FUEHRER (o “9” significava espaço na mensagem decifrada) e ajudou o sucesso do Dia D. Para administradores, uma aula: quando faltaram recursos, um deles levou uma carta a Churchill. Não podia dizer aos secretários dele o que fazia nem o que queria. A carta chegou a Sir Winston e ele escreveu: “Ação. Para hoje”. Jack Copeland, o autor do livro, é de longe o pesquisador que melhor estudou o trabalho dos criptógrafos ingleses e a vida de Turing. O Colossus não foi coisa dele e suas excentricidades acabaram abafando o gênio. Vestia-se mal, não falava, raramente ouvia e corria 30 quilômetros. Era tudo isso e mais homossexual, numa época que criminalizava essa preferência. Turing teve uma namorada, caso rápido. O livro tem longos trechos onde Copeland explica as ideias e o trabalho do gênio. Dão trabalho, mas, com paciência, podem se tornar aulas fascinantes. O fim da história é mais ou menos conhecido. Sua casa foi assaltada, ele foi à polícia e deu queixa. Como não mentia, contou que dormira com um rapaz. Foi processado por indecência. A Justiça mandou que escolhesse: cadeia ou tratamento hormonal castrativo. Dois anos depois, Turing foi encontrado morto em sua cama. Ao lado, tinha uma maçã na qual teria injetado cianeto. Nessa época, estudava o crescimento dos tecidos vivos. Ele jamais falou da quebra dos códigos. Diz a lenda que a maçã mordida teria inspirado a marca da Apple. É apenas lenda. Com bons argumentos, Copeland vai além: não se pode afirmar que Turing matou-se. A maçã nunca foi examinada e ele fazia experiências em casa com cianeto. (Outro biógrafo sustenta que ele disfarçou o suicídio deliberadamente.)Turing tornou-se um ícone da comunidade gay mundial. Em 2009, o primeiro-ministro Gordon Brown desculpou-se pelo sofrimento que lhe foi imposto e o companheiro Obama saudou-o como um dos grandes gênios do século XX. Atualmente, corre na Inglaterra uma campanha para que o governo apague a condenação que lhe foi imposta. Nela está o físico Stephen Hawking.:
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