sexta-feira, 20 de abril de 2012

Musica & Sinestesia



"Gosto, mas não entendo". Essa é uma resposta recorrente quando pergunto a alguém se curte música clássica. O sujeito ergue de imediato uma muralha preconceituosa que, no entanto, não foi criada nem é cultivada por ele, Entender a música não é resultado da memorização de um código esotérico. Vários aspectos da música, é claro, beneficiam-se de um longo estudo, mas capturar o seu significado emocional ou dramático ou é imediato, ou requer apenas que a gente se familiarize com ela. Entender a música no sentido mais básico significa simplesmente gostar dela quando você a ouve. É verdade que a música não-familiar precisa ser ouvida algumas vezes e de fato requer certa dose de boa vontade para arriscar-se em novas sensações: o poeta italiano Giacomo Leopardi afirmando, nos anos 1820, que "o princípio da música e de seus efeitos não pertence à teoria do belo, mas é assunto de cheiros, gostos e cores, e assim por diante... por isso não surpreende que animais tenham tanto prazer quando ouvem música". Essa identificação da arte da música com a arte de cozinhar e a alquimia dos perfumes implica que a música atende aos mais básicos e menos intelectuais instintos humanos.
O conhecimento especializado pode nos recompensar e permitir-nos compreender por que temos prazer em ouvir o que gostamos mais; pode também nos esclarecer sobre como a música age sobre nós para proporcionar prazer , porem  mesmo quem não sabe ler música entende o que ela diz e fica com vontade de recorrer a gravações das obras para sacar suas tiradas argutas, rigorosas e que iluminam de modo inédito peças tão batidas como um noturno de Chopin, a Kreisleriana de Schumann, sonatas para piano de Beethoven, os quartetos de cordas e sinfonias de Haydn e Mozart, a Salomé de Strauss, a Tosca de Puccini ou o Wozzeck de Berg. Examinar como o sentimento é representado é mais importante do que colocar um crachá em seu significado, a música é muito mais precisa nesses assuntos do que a linguagem escrita, a música  realmente tem o poder de ilustrar sentimentos e despertar emoções em quem a ouve. Entretanto, vivenciar um sentimento na vida é diferente de vivenciar o mesmo sentimento representado por uma obra musical, afinal, qualquer um razoavelmente familiarizado com a música sabe que uma peça é triste, grave, majestática, jocosa, apaixonada, lírica, atormentada, tranquila, ameaçadora. No cinema, sabemos perfeitamente quando a música descreve situações de dor ou alegria, de amor ou de esperança.
 A música é essencialmente um pobre sistema de comunicação, precisamente porque tem um vocabulário bastante fraco e mal definido, apesar de possuir uma sintaxe e gramática muito ricas. É evidente a fraqueza dos elementos individuais da música como portadores de significado, sua ambiguidade e imprecisão: os motivos, as harmonias, podem ser facilmente mal interpretadas quando fora de contexto, precisamos ser humildes para lembrarmos a nós mesmos que o poder da música em nossas sensibilidades depende muito menos da composição do que da execução !

*Sinestesia (grego συναισθησία, συν- (syn-) "união" ou "junção" e -αισθησία (-esthesia) "sensação") é a relação de planos sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o olfato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica

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