sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"Memória é base de toda identidade"











"Memória é base de toda identidade & VALORES COMO A IGUALDADE ENTRE OS HOMENS NÃO PODEM MAIS SER DisCUTIDOS"





Não me assustava a idéia de logo me ver de novo lá fora, onde tudo é mais difícil e cruel do que aqui na Casa. Sozinha, sim, eu teria tido um medo imenso e jamais sairia desta paz que eu desejara e invocara quando aquele morbo mais venenoso que uma serpente me prostrara. Também ele, sozinho lá fora, com certeza deve ter tido medo;talvez por isso tenha vindo me buscar. Não para me salvar – embora estivesse convencido disso, dando a entender em suas canções. Talvez enganadoras, mas fascinantes; eu o teria seguido só para ouvi-las de novo. Não, ele não viera para me salvar,mas para ser salvo. Como posso cantar minhas canções em terra estrangeira?, me dizia. Eu era a sua terra perdida, a linfa de sua floração, de sua vida. (...)Ubiratan Brasil
Na continuação da entrevista, o escritor italiano Claudio Magris, autor de O Senhor Vai Entender, discute os sentidos da memória e questões prementes na Europa de hoje, como a imigração.A memória é uma constante em seus livros.
Vivemos hoje em um momento político no qual amemória é empregada muitas vezes de maneira reacionária.definiria a importância da memória?
A respeito dessa ambivalência da memória,do seu aspecto Como o positivo e negativo, particularmente hoje,escrevi um breve ensaio,publicado depois em livro intitulado LaStoriaNonÈFinita. Há dois aspectos da memória.Um absolutamentepositivo, um grande valor. Não por acaso na mitologia grega Mnemosina, a Memória, é a mãe das Musas,ou seja,detodas as artes, do que dá forma e sentido à vida, protegendo-a do nada e do esquecimento. Na tradição hebraica,um dos atributos mais profundos de Deus é o de lembrar"até a terceira,aquarta, a centésima geração". Essa memória é aomesmo tempo justiça e caridade, a recusa a permitir a extinção do mal e o resgate de suas vítimas.Nesse sentido,o ato da lembrança é caridade e justiça para as vítimas do mal e da dor,indivíduos e povos desaparecidos muitas vezes no silêncio e na escuridão. A memória é a resistência a essa violência, à violência infligida às vítimas, constituída pelo esquecimento. A memória étambémo sentido do caráter coral do conjunto de todos oshomens,até daqueles não visíveisnaquele momento, que ela descobre estarem presentes. As pessoas, os valores, os afetos, as paixões "são": embora estejam vinculados a um momento temporal preciso, não pertencem apenas a ele,assim como um poema escrito em determinado dia de determinado ano não pertence apenas àquela data, mas ao presente da vida e continua existindo e crescendo. Esse rememorar, estreitamente relacionado ao amor, tem muito pouco a ver com a memória mecânica,com acapacidade de registrar e guardar muitos dados, e nada tem a ver com a chorosa nostalgia sentimental do passado, transfigurado e falsificado, como se tivesse sido melhor do que o presente, mesmo quando foi horrível e repletode desgraças .
A memória é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva, e baseia se no livre conhecimento de nós mesmos,até nas nossas contradições e carências, e não na remoção, que cria medo e agressividade. Guardiã e testemunha, a memória é também a garantia de liberdade; não por acaso as ditaduras procuram alterar ou destruira memória histórica. Os nacionalismos a falsificam, a violentam, o totalitarismo brando de muitos meios de comunicação a apaga. Mas há também uma memória negativa,que pretende ligar irreparavelmente os homens ao passado,petrificá-los como rosto de Medusa.Uma memória rancorosa que acorrenta a alma à lembrança dolorosa de todas as injustiças sofridas, mesmo distantes, talvez até de séculos atrás,e a necessidade de apresentar sua contatambém a herdeiros ou a herdeiros futuros que não têm culpa nenhuma,de vingá-losi ndiscriminadamente,perpetuando assim a cadeia de violências e vinganças, alimentando novas tragédias.É essa a memória,por exemplo, que alimenta, envenena e falsifica os nacionalismos. Por outro lado,a memória criativa é liberdade, também liberdade da obsessão de lutuosos eventos lembrados: "Atira atrás de ti a tua dor eserás livre", diz Rebeca em Rosmersholm, de Ibsen. A memória olha para a frente; carrega consigo o passado, mas para salvá-lo, assim como são recolhidos os feridos e os mortos que ficaram para trás, para levá-lo de volta à pátria,à casa natal que cada um, afirma Bloch, acredita em sua nostalgia ver na infância e que, entretanto, se encontra no futuro,em um futuro livre e liberto. Hoje, infelizmente assistimos, quase em toda parte,a uma recuperação da memóriaem sentido negativo, memória como obsessão para atiçar novamenteo ódio.
O tema da imigração tem despertado todo tipo de reações extremas. Como vê a questão?
A imigração temi nfinitos aspectos, dos econômicos aos culturais. Hoje, as civilizações se deslocam e se mesclam, povos e estirpes distantes se encontram e suas visões de mundo – religiosas, políticas, sociais – vivem lado a lado, em um politeísmo de valores, significados, tradições, costumes e instituições que ninguém pode ignorar. É um processo que enriquece as nossasc ulturas e aomesmo tempo desperta medos e obsessões de defesa. Na globalização, toda identidade sente-seameaçada, teme dissolver-se e desaparecer, e então exaspera a própria particularidade,e torna-a uma diversidade absoluta e selvagem, um ídolo – que, como todos os ídolos, impele facilmente à violência e ao sacrifício cruento. Algo semelhante ocorreu na Grécia do século 5º a.C. com a dissolução das antigas comunidades familiares-tribais no Estado, na Polis; processo do qual nasceu em parte a tragédia grega. As respostas intolerantes às atuais transformações do mundo são perigosíssimas e bárbaras ei mpedem gravemente– com obstáculos de todo gênero– esse processo de formação de uma nova e mais autêntica universalidade;um processoi nstigante, porque pela primeiravez na história, através de um diálogo que desconhece fronteiras, está nascendo ou poderia nascer, embora entre mil perigos e horríveis distorções, uma universalidade realmente universal, expressão das civilizações de toda aTerra,não apenas do Ocidente ou do Oriente. Obviamente, é preciso envidar todos os esforços para aceitar o maior número possível de pessoas que se dirigem dos países mais pobres e de condições de vida em geral desumanas, paraos mais ricos ou pelo menos onde é possível viver melhor; nesse sentido, cada um de nós deve estar profundamente empenhado. Também em reconhecer o enriquecimento proporcionado por esses novos compatriotas e vizinhos.Naturalmente, não devemos ser ingênuos; devemos saber que esses contatos poderão criar situações difíceis, principalmente quando o número de imigrados crescer a ponto de ser objetivamente insustentável em um determinado país, até criar situações extremamente difíceis. É evidente que se os milhões de pobres da Índia fossem para a Itália, não haveria lugar para todos,tanto em termos físicos quanto materiais. Por isso, a política de imigração deve serglobal; na Europa, pelo menos unitariamente européia, mas mundial, o que, evidentemente, nos dias de hoje, não passa de uma esperança utópica. Além disso,também emt ermos culturais, não devemos ignorar que os crescentes contatos entre culturas diferentes, que tanto nos enriquecem, poderão criar situações difíceis, nas quais a escolha entre o devido relativismo cultural e a afirmação de valores irrenunciáveis poderá impor-se de forma dramática.Pessoas pertencentes a outras culturas deverão tornar-se européias conservando sua peculiaridade, sem serem brutalmente absorvidas pelo modelo ocidental. Mas poderão ocorrer também situações de conflito, nas quais será dolorosamente necessárioescolher, no máximo relativismo cultural possível, um mínimo de valores éticos inegociáveis. Alguns valores nãopodem mais ser discutidos, como por exemplo, a igualdade de direitos de todos os cidadãos independentementeda raça, do sexo ou da religião. Se uma cultura contestar esses valores, será preciso defendê-los.

Você sempre confessou fascinação pelo cinema. Projeto a realizar?
Sim, o cinema era um sonho meu. O meu primeiro romance, Illazioni Su Una Sciabola (Ilações em torno de um sabre), nasceu na minha mente como, ou pelo menos também como, projeto de um filme. Contar com as coisas, com a realidade, com os rostos, era algo que me fascinava e me fascina. Até agora, esseamor se frustrou. Recentemente, Erman no Olmi, Maurizio Zaccaro e eu escrevemos um roteiro extraído desse livro. Gostaria muito que este projeto pudesse concretizar-se.Quem sabe... ●
fonte O Estado de São Paulo

Um comentário:

Poder Mágico disse...

Olá Alfeo, apesar de não sermos máquinas dotadas de memória RAM, e ainda bem, somos portadores de nossa própria identidade, é a nossa "assinatura digital" para nossos "arquivos pessoais". Ainda bem que não pagamos, ou nos são impostas obrigações do tipo windows, pois nascemos livres (talvez mais que o Linux) para pensar, imaginar, idealizar e acumular em nossa memória nossas emoções, amores, cultura, etc.!
Abraços
Surfdasestrelas - Aurelio
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O Projeto FIEL (Forma Inteligente e Ecológica de Locomoção) surgiu da idéia de incorporar as vantagens de uma motocicleta, como: facilidade de manutenção, baixo consumo e agilidade, com as vantagens de um carro: conforto, segurança e espaço, em um veículo apenas.